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Tiago D. Oliveira

TIAGO D. OLIVEIRA

 

 

Tiago D. Oliveira nasceu em 1984, em Salvador-BA, é professor, poeta e escritor. Tem poemas publicados em blogs, portais, revistas e jornais especializados. Participou de antologias no Brasil e em Portugal, dentre elas: Contos nos is (Edições Ecopy, 2011, Portugal), Entre o sono e o sonho – tomo I e II (Chiado Editora, 2013, Portugal), Entre o sono e o sonho (Chiado Editora, 2016, Portugal). Publicou Distraído, poesia (Editora Pinaúna, 2014) e Debaixo do vazio, poesia (Editora Córrego, 2016).



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Conheça 5 poemas do livro Contações, de Tiago D. Oliveira:





Sereia do dique



suas águas
já não são as mesmas.
há a dureza do asfalto
por onde correm
gotas e lágrimas
[chuva
que lava, leva.
tal como filho,
que no desassossego,
retorna para o colo da mãe.
suas águas são
como o sangue a cobrar
aos seus, tantos
em trapos sensíveis,
insensíveis, carne
que se perfuma, mas
logo volta a exalar, carne.
somos pobres, somos ricos,
e ainda se consegue,
em raros momentos,
ver o brilho
de sua calda.

 

***

 

ladainha de loló

 

 

que a sereia do dique
não mais encontra essência na terra
que lhe toque o coração. isso
fez com que perdesse o interesse pelo ar.
que um dia fora como nós e cansou
da imagem do sangue
derramado. que
se exilou
no fundo do dique do tororó.
que sua pureza era única
em toda cidade. que
as entidades espirituais
a encontraram, deram-lhe vida
sob as águas. o canto,
a beleza conhecida de rainha.



***



Arlinda de são pedro


prefácio por loló

 

mata dois no interior e foge para a capital.
caminha pelo centro da cidade até escurecer.
salva uma mulher das facadas do marido.
arranca as bolas do homem com uma garrafa de cachaça.
bebe o defunto.
joga o corpo amarrado a duas pedras no mar.
assume o bar da flor.
tem uma única filha.
some.
perde a vontade de ver o mar, a memória.
morre tomando banho de chuva,
leve,
virgem.
calão.


I


arlinda
nasceu depois de receber um raio
enquanto se depilava no quintal. o brilho
da lâmina cegou
são pedro,
que desceu dos céus e penetrou a mulher.  
surgia o dom da premonição,
arlinda de são pedro
– o povo até acrescenta o subtítulo –
a mulher que piroca nenhuma põe defeito.
era moça e foi tocada pelo raio.
como não teve direito a repetição,
seguiu os passos do pai,
abriu um bordel e se transformou
na maior cafetina da cidade,
mas ainda continuava a ser virgem,
a filha de calão.

[...]


***


Língua do mundo

 

quem cai no poço
meleca as anca
e as perna bamba
espalha as lama
do pé ao pescoço



quem come
o prefeito, come
a mulher também: rela
coroinha safado!


tá num cagaço
só, cheio da lama –
pega, pega!




dizem

que quando estirou as canelas tiveram que cavar duas covas: uma para o corpo e outra para a língua. que mesmo dobrada chegava aos dois metros.

de boca


em boca sua fama atravessou quase todas as cidades do recôncavo até chegar a salvador, numa manhã calma, nublada, de um 1º de abril, há tempos.

lenta

a podridão ganhou o riso e as palavras receberam o peso do machado de um carrasco. medo era a alcunha de língua do mundo. por fim, raiva.



morcego quando avoa
é pelo escuro que enxerga
vai beirando as escondida
mijando e cagando nas cabeça
sem nem olhar pra baixo
morcego quando avoa, avoa


eita, que o prato preferido
do padre é rabada! eita,
seu moço?



do mundo

 

como era chamado, foi um homem sensível, maltratado pela vida, que perdeu as memórias do tempo em que vestia roupas limpas.



dor


confusão, quando lhe dava na telha saía nu pelas ruas. ao pôr do sol colocava seu traje fiel de maestro falido e regia sorrindo as verdades ocultas dos outros – loucura.

 


os pombo quando come, come
sujam de branco os teto dos carro
só de pirraça ficam nos fio
mirando e mirando
derrelam gozando e some






eita, fazedor
de égua feliz,
retado! a mão,
lava a mão
antes de pegar
na hóstia, safado!



a língua


do mundo começou a crescer repentinamente. diziam que coçava as costas sem dificuldade, que se metia em qualquer canto sem problemas.


que


o prazer pelo álcool era ilimitado. que todos os sabores, aventuras intensas. que nunca parou de crescer, mas miticamente se recolhia no sonho.


inaugurar

 


revelar, este era o seu
sexo: gozava e dormia
plácido com a fé
dos que fazem
a coisa certa, enfim.


cobra não tem rola
rola só avoa
como pinto em sonho
que quer virar cobra
que quer virar rola


eita, beiçamento
lindo, dona moça!
tô na vontade, quem
aguenta três vai com quatro.
da próxima vez, fecha
a janela da sala, gulosa!

o homem


incomodou toda a gente de moral da cidade. as missas de domingo passaram a ficar vazias e o salão paroquial já não funcionava como antes.



o tempo


castigou e o telhado cedeu, trazendo a água pelo teto. uma luz como nunca antes vista iluminava os bancos vazios da igreja.



novamente



as desculpas se excederam até que ninguém mais era visto pelas ruas a caminhar. o pão era feito em casa. o leite retirado direto dos quintais.



qualquer


transação comercial era feita por carta ou telefone. as lições escolares continuaram, pois os únicos que não possuíam teto de vidro eram as crianças e os professores. cada família se tornou um mundo. a violência e o crime desapareceram. a paz reinava.



língua


do mundo foi caçado e preso. no porão da igreja, havia apenas uma pequena janela. ficou a pão e água, triste, magro.

 

desabará


diziam em seu olhar: perdia-se fácil dentro do silêncio que eram os seus dias. até que esquecido totalmente, o pão cessou e a água só chegava quando chovia. em seu suspiro derradeiro, disse a sua última verdade e partiu sorrindo – fudeu.



 


 

Livro: Contações

Autor: Tiago D. Oliveira

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 154

Formato: 14x21

Preço: R$ 38,00