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Marla de Queiroz

MARLA DE QUEIROZ

 

Marla de Queiroz, autora do livro Quando as palavras se abraçam, é brasiliense que reside no Rio de Janeiro e também autora de Flores de Dentro . Formou-se em jornalismo e exerce a poesia encontrada nas paisagens. Quando morrer, pediu para escreverem em sua lápide: “aqui jaz uma poeta que morreu de rir.” Seus textos podem ser encontrados no seu blog transFLORmar-la: http://doidademarluquices.blogspot.com.br/

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Skook de Algarobas Urbanas

 

Conheça 03 textos de Marla de Queiroz

 

SOBRE A HARMONIA


São delicados e sutis os fios da harmonia. Ao contrário da alegria, do entusiasmo, ela é uma das sensações mais discretas. Sua voz é quase imperceptível, feito outra qualidade de silêncio. Ela não é uma gargalhada, é aquele sorriso por dentro, uma sensação gostosa de estar no lugar certo, na hora adequada. Feito um arco-íris depois da tempestade, sua beleza é adornada pelo equilíbrio dentro do derramamento. É um adestramento dos fantasmas internos. A possibilidade de aprimorar os pensamentos. É quase como não pensar. Simplesmente, sentimos uma ligação profunda com tudo, um denso bem-estar. Como se tivéssemos uma secreta intimidade com o mundo, certa cumplicidade com o tempo. É como se observássemos descompromissados, ela é uma descontração. Como se o coração batesse pelo corpo todo, mas sem extremada euforia. Uma tranquilidade dilatada no peito, o olhar satisfeito, a mente entendendo que já nem precisa entender o que é prosa ou poesia. E o mundo inteiro cabendo num abraço. E uma firmeza na carícia, a maturidade que perdeu o cansaço, uma confiança que preenche a existência. A harmonia é um contato profundo com a experiência. E o tempo do dia não é mais composto por esperas, ele é vivido. E já não se fala, palavras passeiam pela boca. E já não se escreve, as frases coreografam as paisagens. E já não se ama, o amor vigora em nós. A harmonia tem fios muito delicados e sua trama faz a ligação mais suave entre todas as urgências já sentidas. E o chão do sonho é macio, e tudo parece estar alinhavado, numa ligação sem sufocamentos. E a poesia não deseja mais ser nada, vira o afago de um momento. E nas letras a textura de um veludo, como se ao correr pela página, os olhos pudessem ser acariciados. E você tem todas as coisas sem precisar tomar posse delas. Você ama o amor, não o delírio de estar apaixonado. Sinto a harmonia como uma espécie de fascínio pela vida. É quase uma perda de outros apetites, porque se está tão nutrido pela própria companhia. E a gente tem aquela vontade súbita de andar pela noite: não apenas para olhar as estrelas, mas também para por elas sermos vistos.
Harmonia é como se fôssemos inundados pelo mar onde antes só havia um precipício.

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EXTENSIDADES

O jeito que ele me olha é que me inspira e desgoverna. Um jeito que me conhece no derramado de dedos que convidam. De quando eu peço abraço quando ele quer me dar, mas faço tudo quase num contorcimento de dor, e ele acha bom eu ser intensa. E a voz sem sossego, o corpo pronto e quente sempre. E, se ele demorou tanto, nós sabemos: amor também precisa amadurecer ou maturar na arnica, feito remédio. Nunca tive muita impaciência na espera, ele sabe. Pude pular de galho em galho e ir embora quando meu coração não queria ficar, enquanto. E, das vezes que quis ficar e não tive espaço, entendi. Funciona quase como o mesmo modo de quem faz ninho para um só passarinho, aquele todo especial. Mas eu exerci meu par de asas. E fui feliz com as paisagens que sobrevoei. Aí, quando eu menos esperava, ele chegou encompridando alegrias tão amenas, tão bestinhas. Fui compreendendo aquela falta de desespero. Eu achando graça na saudade. Eu perdendo o peso da lembrança só pra rir de tudo. Eu ficando leve. Eu sentindo sono logo na infância da noite. Porque meu coração estava, enfim, descansado. Eu achando bom meu coração pousar assim: decidido e destrambelhado.

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PAISÁGINA



Observo por um tempo o comportamento solitário das palavras e espero até que elas queiram se relacionar. Se encosto uma ao lado da outra e há estranhamento, talvez nasça um texto bom. Se as aproximo e o abraço imediato, talvez eu só consiga chegar ao lugar comum do romantismo. Tenho procurado em mim mais rebeldia poética. Eu queria conseguir dizer algo tão inusitado que mudasse a minha própria leitura de mundo, meus relacionamentos. Minha inquietação vem dessa vontade de me aprofundar no desconhecido sem a pretensão de conhecê-lo. E me embrenhar com entrega na coisa viscosa que é o escuro das coisas. Como um amante viril, queria adentrar o corpo do conteúdo do mundo por puro instinto, sem essa preocupação com a delicadeza. O dizível não tem me seduzido ao ponto da insônia. Eu não quero namorar o marinheiro, eu pretendo o maremoto −  criar num corpo um cais e deixar que tudo seja engolido até que eu não tenha novamente chão... e mergulhe. Ando habitada por redemoinhos e alguns versos de água doce que eu ainda não chamaria de chuva. É mais perene do que isso e fluido como um rio. Mas é meu e solitário.
Usei todos os meus recursos estilísticos até aqui porque pretendia contar uma história. Mas ela foi tão rasurada que, percebi, não pode mais ser salva.

É composta por desertos esta paiságina...


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Livro: Quando as palavras se abraçam

Autor:
Marla de Queiroz

Gênero:
Prosa poética

Número de Páginas:
120

Formato:
15x20

Preço:
R$ 30,00 + frete