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Cinthia Kriemler

CINTHIA KRIEMLER

 

Autora, pela Editora Patuá, dos livros Todos os abismos convidam para um mergulho (Romance, Patuá, 2017), Na escuridão não existe cor-de-rosa (Contos, Patuá, 2015), Sob os escombros (Contos, 2014) e Do todo que me cerca (Contos e crônicas, 2012), Cinthia Kriemler é romancista, contista, cronista e poeta. Carioca, mora em Brasília há mais de 40 anos. Graduada e pós-graduada em Comunicação Social/Relações Públicas pela Universidade de Brasília, é Analista Legislativo da Câmara dos Deputados. Membro da Academia de Letras do Brasil, ALB/DF, Seccional Brasília, cadeira nº 32. Membro da Rede de Escritoras Brasileiras — REBRA e do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal — Sindescritores. É também autora dos livros Para enfim me deitar na minha alma, projeto aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (2010) e da novela policial Atos e omissões, ambos reeditado em e-book pela Amazon Brasil (2013). Tem publicações em diversos periódicos impressos e virtuais, além de atuar como colunista, com colaborações fixas na Revista Samizdat e na Revista Biografia.

 

 

Contatos:

Skook de Algarobas Urbanas

 

Conheça o conto Na escuridão não existe cor-de-rosa:

 

Na escuridão não existe cor-de-rosa


Quando eu era pequena, eu queria ser bruxa. Bruxas não usam cor-de-rosa. Nem são loiras. Eu não conheço bruxas loiras. Só conheço fadas. Castelos. Sonhos. Varinha de condão. Sapatos número 35 — vá lá, 36 nos dias de calor! —; manequim 34. Gestos delicados. Passos de gata no cio. Ou de gazela, ou de garça. Esses bichos dissimulados. Cabelos loiros. Loiro Ultraclaro 90. Koleston. Nem cachos, nem ondas. Liso europeu. Fadas são europeias. Olhos azuis bem claros. Da cor do mar de Aruba. Que não é na Europa. O mar das bruxas não é azul. É escuro. De tempestades e naufrágios. Mar Negro. Afunda cinco navios de uma vez. Carrega tudo para as águas de baixo. Embaixo d'água não tem fada. Fadas não podem molhar o cabelo. As bruxas podem. Bruxas têm cabelos de anêmona. E se grudam nas rochas do fundo do mar. E afundam navios. Cinco de uma vez.  Para brincar de contar os corpos inchados dos afogados e os pedaços de barcos e lemes e adriças e quilhas e estais e gaiutas e birutas. Birutas são as fadas. Mornas como as correntes do Golfo. Bruxas são geladas. Como as correntes de Humboldt. Cheias de plânctons, de peixes. Ou quentes pela chegada afrodisíaca de El Niño. Eu queria ser bruxa. Quando era pequena. Vassoura, caldeirão, poções de magia, chapéu de ponta. A carruagem das fadas não é segura. Ela rola no precipício. No precipício das bruxas. Onde moram as cobras, os lagartos, os sapos que nunca viram príncipes. E os corvos, essas criaturas dadas às carnes mortas. Que só comem quando sentem fome. Que limpam a sujeira que não fazem. Limpam, limpam, limpam. Para que as fadas pisem terra sem restos. Para que as fadas não cheirem a podridão da morte. Mas as fadas insistem em preferir os passarinhos. E os dias de sol. E os meninos e meninas com juízo. E os homens bonitos. E o pagamento em euros. Ou libras. Cotação em alta. E tudo cor-de-rosa. As unhas, as bochechas, o pôr do sol, a vulva, a moldura do espelho. Bruxas não gostam de luz. Nem de reflexos. Por causa das verrugas que têm no nariz. Que afastam os meninos e meninas cheios de juízo. E os homens bonitos. Bruxas só gostam da noite. Entranhada dos sons das criaturas invisíveis. E da igualdade mais estranha. Na escuridão não existe cor-de-rosa. Nem fadas. Porque as fadas dormem com as galinhas para ter a pele mais bonita. Eu queria ser bruxa. Desde pequena. E de tanto gritar para a boca da noite, ela me respondeu: Your wish is my command!

 



 

Conheça trechos de 2 contos do livro Sob os escombros, de Cinthia Kriemler:

 

 

Vento em outono


"Pertenço-me, finalmente. Está em minhas mãos passar pelos dias e noites sem tormentos ou permissões. Não há mais ondas de viver insensatas impingindo-me vontades, comichões. Nem criaturas atormentando meu desejo, obrigando meus sonhos. Tudo está sob controle. Meu controle. Sinto falta, é bem verdade, de algum ontem. Talvez das pernas que se entrelaçavam às minhas, ou das mãos que esculpiam arrepios em minha pele branca. Não sei... Mas o desconforto é breve.

Fartei-me de gente. Gente que encontrei em muitas camas onde amassei lençóis e cometi pecados por ardor, por vício. Entreguei meu corpo à pilhagem. Rapinei também. Deitei fora, sem remorso, as almas que teimaram em germinar dentro de mim. Sem nenhuma culpa. Devorei o que me serviram. Dispensei os ossos e as cruzes. Apenas isso.

De início, houve um tanto de dor, quando me desnudei das pessoas. Dor gotejada. Mas nenhum medo, nenhum choro, nenhum grito. Eram somente pessoas que partiam de mim. Depois que não restou nenhuma dor é que aprendi a sentir solidão. No espaço vazio do meu peito, lutamos por mim. Eu a deixei vencer. Ela, em troca, me tomou por companhia."

(...)

 

Sob os escombros



"Lembrança é vida soterrada. Escondida sob escombros fundos, onde a dor se acomoda em letargia e desistência por um tempo longo demais, curto demais. Conveniência? Ou seria medo o que nos faz insistir no esquecimento? Sofrer é hábito descuidado. E a gente nem percebe há quanto tempo não sente alegria. Ou paixão. Ou vontade. Ou qualquer coisa que aqueça o coração. Segundos, anos... Quanto tempo se leva sendo triste? Tornar-se infeliz é bordado lento. É como poeira nas roupas, que se assenta em camadas finas, toldando o viço, deturpando os fios da trama. Ser triste leva uma vida. A vida que depois a gente esconde na memória. E pensa que esqueceu."

(...)

 

"Memória é vento que se encolhe com frio de si mesmo; tormenta que se guarda para um próximo açoite. É linha que costura na alma, em ponto miúdo, todos os choros, todas as belezas, toda a rebeldia. E repousa, e repousa, e então desperta. Esparrama-se em rajadas. Como um pulmão que expele. Para não sufocar."

 

 

***



 

Conheça trechos de 3 crônicas do livro Do todo que me cerca, De Cinthia Kriemler:

 

O que não faz um apito

 

"O sujeito é um amor, e aí você deixa para lá os defeitos dele. Não corrige os erros de português que ele comete; ri das graças que têm graça e das que não têm; deixa que ele fale o que quer; releva as infantilidades e as vaidades.

Então, era uma vez. E você descobre, tarde demais, que ele “se acha”! É um homem completo, genial, não precisa reparos nem ajustes. A inteligência dele está acima da sua, e ele passa a lhe dedicar conselhos, a falar de suas experiências de vida como se fossem únicas e... Únicas.

Então, um belo dia, o acaso conspira. Mais uma vez, é claro, contra você. O sujeito engraçado, amigo, companheiro e quase humilde que você conhecia fica lá atrás, num tempo que a poeira esconde. Ele, agora, explode em autoconfiança porque se encontra em posição de julgar. De julgar você, ou, melhor dizendo, de julgar alguma coisa feita por você. E ele adora isso.

Como é que pode?"

 

[...]

 

O Oitavo Dia

 

"E no princípio era o Verbo...

Vamos convir que o Gênesis é solene e faz pensar. Imagine a Inexistência, o Nada, e a rebeldia de Deus, cansado de tanta solidão e decidido a fazer surgir todas as coisas pelo poder da Palavra. Cria, então, Céu e Terra, luz e escuridão, água, planta, animal e homem. E tem lá os seus motivos para criar o homem por último.

Depois de tanto esforço, descansa, no tal Sétimo Dia. E é aí, creio eu, que meio cansado de tantas obras, dorme no ponto e permite o livre-arbítrio. Tenho certeza de que foi assim o início da nossa gloriosa Evolução.

E aqui estou eu, um ser evoluído, e esta incumbência de mostrar aos homens de todos os tempos como foi que todos os tempos aconteceram."

[...]

 

Conselhos divinos, sexo e vídeos



"Tem gente que dá ideia. Tem gente que põe em prática.

Assim que fiquei sabendo sobre o tal pastor que mandou a paróquia toda praticar sexo sete dias por semana, achei que aquela era a minha igreja. É verdade que a teoria precisava de uns ajustes, mas nada que impedisse aquela súbita e deliciosa sensação de euforia.

É verdade que a coisa tinha sido receitada para evitar traição, mas confesso que me atraiu muito mais a prática do que os resultados projetados. Chamei o maridão na sala, na mesma noite, e soltei de uma vez: “Você sabia que é da vontade de Deus que um casal faça sexo sete dias por semana?” Bom, se não era isso, era quase.
A descontração do momento e as gargalhadas que soltamos acabaram por nos conduzir ao objetivo principal do papo. E assim foi, a cada noite, uma após a outra, sem falta: a gente começava o assunto, caía na risada e depois...

Nas primeiras semanas, o controle sobre o maridão foi mais afrodisíaco que o sexo. Eu, finalmente, tinha aprendido a ligar e desligar o sujeito! (...)"

 

[...]

 

 


 

Livro: Todos os abismos convidam para um mergulho

Autor: Cinthia Kriemler

Gênero: Romance

Número de Páginas: 272

Formato: 16x23

Preço: R$ 45,00 + Frete

 



 


 

 

Livro: Na escuridão não existe cor-de-rosa

Autor: Cinthia Kriemler

Gênero: Contos

Número de Páginas: 136

Formato: 14x21

Preço: R$ 35,00 + Frete

 



 


 

 

Livro: Sob os escombros

Autor: Cinthia Kriemler

Gênero: Contos

Número de Páginas: 150

Formato: 14x21 - acabamento em capa-dura

Preço: R$ 35,00 + Frete

 

 

 


 

Livro: Do todo que me cerca

Autor: Cinthia Kriemler

Gênero: Crônicas

ISBN: 978-85-64308-61-9

Número de Páginas: 108

Formato: 14x21

Preço: R$ 25,00 + Frete