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Marco Aqueiva

MARCO AQUEIVA

 

Autor do livro de poemas Germes entre dias brancos (Patuá, 2016) e do romance Sob os próprio pelos - Seres extraordinários (Patuá / Dobra, 2014), título premiado com o ProAC - Programa de Ação Cultural 2013, Marco Aqueiva é Professor no ensino superior e autor dos livros de poesia O AZUL VERSUS O CINZA & O CINZA VERSOS O AZUL (Patuá, 2012) – premiado pela Secretaria Municipal de Cultura de Atibaia – e NESTE  EMBRULHO DE NÓS (Scortecci, 2005) –  que obteve o 1º lugar no III Prêmio Literário Livraria Asabeça. Publicou ainda a novela SÓIS, OUTONO, SOU? (Dulcineia Catadora, 2009). Tem poemas e contos incluídos em antologias e revistas impressas; resenhas e críticas publicadas, dentre outros, na revista O Escritor, da União Brasileira de Escritores. Desenvolveu com Gonçalo Galvão o projeto Diálogos Literatura e Psicanálise no Cinema (entre 2008 e 2013). Integra o coletivo Quatati, de produção e difusão literária.

 

 

Contatos:

Skook de Algarobas Urbanas

 


Conheça 04 poemas do livro Germes entre dias brancos, de Marco Aqueiva:

 

No aço de toda
palavra há germes
condenados à latência:
nada pode ser
excluído ou concluído
que não se transforme.

Escrever só começa

quando o germe se revela

 

***

 

Da metáfora ao germe


O que você quer?
Parafuso em chamas


O que você vê?
Prego em revolução


O que você sente?
Germe que mal se vê
sem achar sua outra forma

 

***

 

Beiras e asas junto ao Bar Montecarlo

 

ii


Por que fazemos coisas?
Porque fazemos.
Os sonhos já nascem nos limites.
Porque fazemos coisas.
Sei que talvez devêssemos deixar
os arredores darem sinais
crescerem com suas sirenas
ainda que em silêncio os telhados
abstratos de um mundo
que bem pouco quer ouvir
o corpo dentro do tempo


Por que fazemos coisas?
Porque fazemos.
Dorme o tempo
daqueles que estão presentes
entre reflexos e ecos
colhendo o cercado das fomes
ideias que subsistem fora de nós
um sentido que mal se poderia
ver e ouvir dentro do tempo


Por que fazemos coisas?
Porque fazemos.
Os castelos estão suspensos
entre a cerração e o medo
a chuva espessa e a história
vistos de frente na cerração espessa
vistos dos fundos no pesadelo
adormecidos em algum lugar
amanhecendo em algum tempo


Por que fazemos coisas?
Porque fazemos.
Para poder vê-los os castelos contraluz
seguirmos seus rastros imprevistos
Sempre prontos a se refazerem
: só assim prontos para habitar

 

***

risco da poesia: a poesia por algum risco

a Pipol

 

v


O risco da poesia
é iniciar o poema
com a vidraça cerrada
e as mãos ávidas de agressão
para mais de uma pedra
contra si mesmo
contra o outro
contra o poema

 

***


Conheça o I Capítulo de Sob os próprios pelos - Seres extraordinários, premiado pelo ProAC:

 



Há seres que não têm existência plena habitando esta realidade. Mas é quando o sonho logra penetrar o intransponível real que esses seres fantásticos passam a respirar com excesso de vida.  O problema é que eles vêm sempre acompanhados do Perseguidor, que, com seus bons serviços, semeia crueldades e cicatrizes.


CAPÍTULO I


Ah, quantas palavras ao redor! E este silêncio. Com que palavras exprimir esta vertigem insuportável e quase impossível de ser partilhada? Nascem-me muralhas entre mim e um inimigo que ignoro completamente enquanto sonho. Acordo, e as muralhas ainda permanecem quando me deparo com a sombra desse guerreiro em meu encalço.

 

Encontrei o manual de certo coletor de risos entre os livros que comprei no sebo. Sou um colecionador daqueles livros em geral absolutamente indesejáveis. Sim, aqueles abandonados até mesmo pelo leitor impulsivo e indiscriminado, voraz de títulos de qualidade duvidosa, papel velho e amaldiçoado à mais rápida olhadela e que só faz a satisfação mesmo do velho sucateiro.

Frequentador de sebos e antiquários, não entendia que pudesse existir um sofisticado equipamento que detecta e absorve a energia calorífera irradiada de um sorriso [sic]. Menos ainda compreendi como esse manual pudesse acompanhar os títulos da Coleção sem mistérios que adquiri. Pouco depois de chegar a meu apartamento e quando já desfrutava de um pequeno cálice do Porto habitual de fim de tarde, comecei a notar uma cintilação intermitente saindo do interior da sacola que trazia as revistas. Uma pulsação luminosa, a princípio frouxa, crescia aos poucos escorrendo para fora da sacola. Essa bica visual encontrava ressonância no vinho que me subia a princípio leve e subitamente me colheu estupefato, como se tomado por um incêndio incontrolável não pudesse resistir à força das ondas e reentrâncias que me agarravam levando-me para o mar grande. Pouco sei de explicações que me levam ao conforto da imobilidade. Cacos do cálice na mão, acordei com a sensação forte da cabeça rachada contra a parede. O manual do coletor de risos não estava mais lá. Tampouco havia vestígio do ovo.

Cadê o ovo? A brisa do mar entrava no apartamento, e uma combinação perfeita de maresia, ondas e raízes de um incompleto movimento me tirava os sapatos e as meias. Sentia resvalarem aos pés águas, areia e sol. Como se me vencesse o esquecimento, percebi-me sem calças. Arrepiava-se a pele e os pelos dos braços à passagem de escamas e tentáculos. Agora nas minhas próprias mãos a cabeça oscilando divertida para fora da concha. Nasciam-me assim antigas lembranças e compreendi claramente que estava metido em uma concha ou ovo.

Será então o caso de fazer-me mais uma máscara? Quase sempre dissimulei minhas intenções. Mesmo nas sondagens honestamente mais comprometidas, tenho dúvidas se a busca é mera distração sobre a mesa de trabalho ou se é, na verdade, uma forma de traição para com esta inquietação que deixo escapar clara por entre os dedos.

Tenho me dito diariamente, desde a juventude, que sou um mau conhecedor das paredes onde vivo. Às vezes sinto-me esburacado por crer na inexistência de uma possibilidade de saída. Outras, janelas abertas, alargando bem os ouvidos, fico olhando e folheando os caminhos de um corpo sobre o outro. Camada a camada. Nas aproximações, enlaces e choques. O outro, esse temível adversário desconhecido, é algo como uma frase líquida escapando por entre as paredes de um texto inapreensível. Absolutamente perdido.

Estaria assim eu, isolado, dentro de um pequeno ovo que não se confirma inteiro e tampouco me ensina a ser mortal e autêntico? Recolhido dentro desta escrita ovo: casca moldura e também profundezas. Nascendo-me nos segredos da sombra, sonhando-me íntimo ao sangue nas fissuras da carne, noite e forma incompleta: bestiário esfinge excreção. Ela provoca-me à passagem por onde e como me derem por manifesto. Suspeito que é indiferente aqui, ali ou lá. Eu como ela, quantas vezes em fome de chão, altura, labirinto e deserto em rotação. Corpo e forma, princípio e fim, sou para ela qualquer espaço em uma errância limite.  Giro travessia mergulho ou hiato, o que é feito além desta casca ao limite irrespirável?

Ou seria esta escrita uma casca por dentro de outras, mal sobrepostas dentre as infinitas nuanças de um sentido gema no interior das profundezas de um mundo só aparentemente determinado? Por uma dessas estranhas combinações resultantes do acaso e da invenção, se eu mais outros fôssemos tão só uma realidade criada; se perseguidos estivéssemos como objetos de outro; se enfiados numa cidade ovo,  todas as personagens se ignorassem completamente e o destino de cada uma delas fosse determinado pela escrita de um terceiro, que é um perseguidor implacável que nunca se dá a conhecer?

Onde está então esse ficcionista insuspeito que nos faz instrumento e resultado de seu experimento e habilidade? Estarei eu sendo controlado como um morto-vivo, seguindo por falsos caminhos, porque tanto os ruídos e as obscuridades do passado quanto os hábitos e as sensações deste presente são um mero maquinismo e entretenimento do Criador? E dizer que alguns catedráticos pretendem que a realidade escapou à ficção, que a cidade não me permite chegar a seu autor, e este não vai além do ovo...

 


 

 

Conheça quatro poemas do livro O Azul Versus o Cinza & O Cinza Versos o Azul, título premiado pela Secretaria de Cultura de Atibaia:

 

vii

a pedra reverbera

sede para as nuvens
um passo arrastado para nada
a língua que solta rinchos
para o peso bruto da areia

a cabaça desprende-se
dos dedos desce chitão
abaixo já submersa
pelas paredes do corpo

uma cacimba mirrada
de vozes faz eco aos cacos
que desaguam na brancura
desigual como toda areia

reverbera o seco

***

xiii

há um pouco de chão e fumaça
que nossa desencontrada memória
faz ouvir germinar e falar mas não
se arranca deste pé de pedra

há mesmo um pouco de profecia
de relógio d’água que ruínas não
juntam que nosso estilhaçado
coração sente pulsar alto o espírito
lá dentro no interior da pedra

há até um pouco de freio na fome
de juventude abafada que nossos
dentes ainda armados de força
e badaladas não repõem violentos
nas sete auroras da pedra
que chamávamos mesa

 

***

 

Entre acessos passagens anuncia-se

ontem se esquiva à cicatriz das mãos
à sucessão de corpos deslizando
entre os vazios e beiras de um mergulho
ponte pênsil, mar me afogando em sílabas

areia que me escapa das palavras

os flancos mal abertos do navio
encalhado na redondez do tempo
abertas sílabas desencontradas
ponte pênsil, mar me afogando em sílabas

praias pedras biquinha pombas pedras
quebra-mar junto às águas da memória
evaporando-se ante sonhos e ânsias

areia que me escapa das palavras

os flancos mal abertos do navio
encalhado na redondez das sombras
outros pés mãos na redondez da fuga

azul do olho em lodo e transparência

 

***

Naquela época o cinza
ainda não nos esticava os arredores
as mãos sem projeto
ainda não abriam as rotas para dentro
os pés em torta revista
ainda não se retraiam sob o tráfego
o corpo neste complexo
ainda não se desvascularizava inteiro

Naquela época entre dores
preocupações e outros cansaços
toda erosão do corpo redescobriu-se
nos lençóis de asfalto

 

***

 

 


 

Livro: Germes entre dias brancos

Autor: Marco Aqueiva

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 120

Formato: 14x21

Preço: R$ 38 ,00 + Frete

 

 

 


 

 

Livro: Sob os próprios pelos - Seres extraordinários

Autor: Marco Aqueiva

Gênero: Romance

Coedição: Dobra Editorial / Editora Patuá

Número de Páginas: 96

Formato: 14x21

Preço: R$ 25,00 + Frete 

 

 

 

 

 


 

Livro: O Azul Versus o Cinza / O Cinza Versos o Azul

Autor: Marco Aqueiva

Gênero: Poesia

ISBN: 978-85-64308-38-1

Número de Páginas: 132

Formato: 14x21

Preço: R$ 25,00 + Frete 

 

 


Beiras e asas junto ao Bar Montecarlo