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Ronaldo Ventura

RONALDO VENTURA

 

Autor do romance Alecrim, Ronaldo Ventura é autor e diretor de teatro. Nos últimos anos vem recebendo alguns prêmios pelas suas escritas que podem ser conferidas diariamente em seu blog, e seus escritos e pesquisas sobre teatro com seu grupo podem ser acompanhadas no blog Curupira Teatro. Seu primeiro livro "Trilogia Lésbica" contém textos dramaturgicos. Alecrim é seu primeiro romance, premiado pelo ProAC 2011 - Prêmio de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura - Governo do Estado de São Paulo.

 

Contatos:

Skook de Algarobas Urbanas

 

 

Conheça trechos de Alecrim, romance premiado pelo ProAC:

 

"Quem tem olho claro devia ver melhor. Olho pra verde todo dia santo ou não. E nada. O que olha não modifica o olhado. E o contrário também é verdade. Bosta varia, mas o marrom é o mesmo, sendo eu, ou outro que olha. Sei porque perguntei. Antes tinha inveja do olho verde que podia verde perto. Fiz essa graça na mesa e ninguém riu. Dois de todos fingiu que nem existia eu. Olho marrom não vê marrom direito. Foi o que pensei quando percebi que não era muito notado na sombra de casa fazendo silêncio. Só mãe com seu olho verde me percebia e me mandava comer. Foi então que perguntei pra mãe se ela via a bosta como eu. Mãe quase bateu na minha boca dizendo que era pecado reclamar da vida. Depois abraçou. Não entendi mas gostei. Tevez que dá vontade de falar de bosta de novo só para mãe colocar seu cheiro junto do meu. Mas mãe não faz mais isso. Só olha. E vê céu. E eu fico com uma vontade que é quase duas, de saber se o azul dela é mais bonito que o meu. Ainda é assunto que me cisma, o olhar de quem olha e o olhado aos olhos de quem vê. Quando pai tinha olho vermelho, pensava que devia ver muita coisa ruim, mas nada de dar medo. Só raiva. Achava então que ele devia de ver sangue onde não havia. E devido a raiva, tratava de colocar sangue onde o vermelho do olhar apontava. O ruim é que era sangue dos outros. Mas mãe não planta folha em casa para ter verde na parede, e assim fazer juz ao que olha. Nem eu cago na mesa para amarronzar tudo. Tive vontade certa vez. Mas não fiz. Claro. Sou cismado mas não sou burro."

[...]


"E se eu for um bolso? Um saquinho de tecido alinhavado onde se guarda coisa para não perder pelo caminho? Mas sou bolso de quem? De mim mesmo? Não faz muito sentido. As coisas que eu guardo é que fazem de mim o que sou e definem assim minha serventia? E meu formato? Mas o que é que eu guardo aqui, da pele pra dentro? E serve pra que tudo isso? Será que tem gente que é bolso inútil, que não guarda nada? Ou nada de útil? E quem decide o que se guarda, e onde guarda? E quando se tira as coisas de dentro da gente? Será que a gente percebe? Será que quando se esquece de algo, na verdade é que foi tirado de dentro da gente? Mas quem é que ia querer alguma dessas coisas que guardo dentro de mim? Será que eu consigo lembrar de tudo que esqueci já? Se sim, por quê? Se não, o que será que quer dizer?


Agora sim eu conheci o medo.

Será que estou furado?"

[...]

"Existe cheiro, existe aroma, existe hálito e existe um outro nome que não conheço. Cheiro é de gente. suor. bosta. pele. dente. sangue. Aroma é de planta e bicho e terra. flor. árvore. mato depois da chuva. barro. couro. bode. titica. Hálito é de Deus. orvalho fora de hora. luz que fica envolta da chama da vela. resto de sonho. e olhar de mãe. E existe um nome que não conheço, que quase não sinto, que não sei de onde vem, que me embota a vista, me embola o peito, que me dói no baixio da espinha, que gela, que faz brasa, que não sei o nome, só sei que existe."

[...]

 

 


 

Livro: Alecrim

Autor: Ronaldo Ventura

Gênero: Romance

ISBN: 978-85-64308-50-3

Número de Páginas: 96

Formato: 14x21

Preço: R$ 25,00 + Frete