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Marcelo Donatti

MARCELO DONATTI

 

Autor do livro de poemas Boatos do corpo, Marcelo Donatti quando abriu os olhos pela primeira vez, a paisagem era São Paulo. A cidade dos automóveis o escolheu para filho, dividindo a tarefa amorosa de vê-lo crescer ao lado dos pais, Geraldo e Marilene, dos irmãos, Marcos, Adriana e Fernando, e da avó materna, o grande amor de sua vida, Luzia. Em uma casa com poucos livros, leu pela primeira vez ao repetir em voz alta a frase “livro amigo”, impressa na contracapa de um volume que contava, se não se engana, uma trama de faroeste. No bangue-bangue de sua história, sempre protegido pela literatura (o seu mais abençoado patuá), encontrou na sexta série de uma escola pública Sherazade disfarçada de professora de português. Aquela mulher, mistério que não sabe explicar, abriu para ele as portas de um mundo com mil e uma noites. E a primeira delas, mesmo sem merecer, passou ao lado de Capitu. É formado em Letras, leu e releu amizades, até finalmente encontrar sua mulher, Noely. Recebeu do “grande mistério” uma filha linda, Beatriz. Ama lecionar e conviver com seus alunos. Como acredita que a vida é, acima de tudo, literatura encarnada, segue rascunhando versos com braços e abraços, além de bocas com línguas (ou linhas), às vezes até – estranhamente - com pé e alguma cabeça.

 

Contatos:

Skook de Algarobas Urbanas

 


Conheça 4 poemas do livro Boatos do corpo, de Marcelo Donatti:


Batismo

O rapaz ergueu-se numa quarta-feira de agosto
sentindo a garganta querer estrangulá-lo.
Almoçou em silêncio,
era tarde.
Para os vizinhos, eram gânglios infeccionados.
Cigarro, muito cigarro, dizia sua mãe.
Ele só tossia, um pouco de cada vez,
mostrando uns olhos espetados por cílios
e o desejo de deixar o trabalho e o telefone tocando,
para trás.

Diante da janela,
aguardava a passagem dos dias,
com os lábios bem separados.

De alguma forma
sabia
que um apaixonado tumor de nicotina
criara no céu da sua boca
uma leve e definitiva baforada de sol.

***

 

Bênção

O garoto dorme
mansamente
no seu berço sem paredes.

Em sonho,
move os pés com meias
coloridas, cintilantes.

Seu quarto -
azul claro, marinho -
é só brinquedos
e um rito em andamento.

De súbito,
o giro mais forte,
um susto:
grita o menino, em prantos.

A casa toda move sua gente:
mãe, pai e avós acolhem
o choro estridente
da criança feliz
que, pela primeira vez,
caiu.

***

 

Carne viva



Debaixo
da minha asa que dorme
mora uma mulher
vestida em carne viva.
Não há segredo que negue pouso a ela.
Seu braço
é cansado demais
pra simplesmente esquecer
que um dia
aprendeu a voar.

***

 

Um céu


Ainda pequeno,
meu pai era um mato hipotético,
talvez grama.
Para mim, tudo.

Frondosa,
minha mãe fincava uma largura
de noventa anos
ao redor de tudo.

Floresta de mim,
eu corria pelos ventos,
enquanto meus irmãos
faziam chuva sem relâmpago...

Até que veio a seca.

E só uns bichos repararam
no fogo que ardeu por uns dias,
tornando tudo pó,
uma família.

 


 

Livro: Boatos do corpo

Autor: Marcelo Donatti

Gênero: Poesia

ISBN: 978-85-64308-57-2

Número de Páginas: 132

Formato: 16x23

Preço: R$ 30,00 + Frete