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Luiz Fernando Pierotti

LUIZ FERNANDO PIEROTTI

 

Luiz Fernando Pierotti, autor do livro Contos do Rio Estige, nasceu em Tatuí no dia 11 de Julho de 1987 e após passar por diversas cidades do interior paulista hoje vive em São Paulo onde estuda Letras na FFLCH - USP. Fascinado pela literatura, tem como sua paixão maior a prosa, caminho pelo qual se aventura.

 

Contatos:

Skook de Algarobas Urbanas

 

 

 

Conheça 03 trechos de contos do livro Contos do rio Estige, de  Luiz Fernando Pierotti

 

Trecho do conto “Sol, sangue e metal”

 

Andamos devagar no rastro de quilômetros de caçambas e espirros de escapamentos. A rodovia que margina o rio Pinheiros transforma-se, como de costume, em uma bolha, um universo paralelo de sons ensurdecedores e calor. A claustrofobia me obriga a abrir as janelas do sedan popular em busca de um pouco de ar, mas esse adentra o carro acompanhado do bafo podre do rio castigado. Barulho, fumaça. Não posso fechar a janela. Saí de casa exatamente pela sensação de sufocamento que ela me causou esta manhã, e eis-me aqui, preso. Manhã de quinta-feira em São Paulo, isso devia significar uma total ausência de sanidade causada pelo meu desespero matinal. Olho para o lado e sinto pena de Fabiana. Afundada no banco ao meu lado, seus olhos correm das páginas do livro que carregava à rodovia, com certo ar de desespero. Um desespero calado. Nem ao menos lia o livro, acredito que apenas o mantinha aberto no colo para tentar enganar a impaciência e talvez, num golpe de concentração, afundar na história e dar-se em si já estacionando em frente a algum barzinho de Pinheiros.


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Trecho do conto “Uma tarde em três tempos”



A primeira coisa que vejo são as patas dianteiras, longas e finas. Frágeis e, ainda assim, de um vigor respeitável. Devagar os membros vão se projetando para fora envoltos em uma fina pele esbranquiçada. Consigo ver, agora, a ponta do focinho. É lindo. A égua relincha deitada no chão. As contrações são fortes e seu pelo castanho brilha com o suor que escorre do seu torso à barriga, ainda inchada. O ar cheira a suor e sangue. Em qualquer outra situação essa mistura seria desagradável visto os motivos que poderiam causá-la, mas aqui, agora, é simplesmente lindo.
Caetano, um dos empregados da fazenda, puxa o potro de leve pelas patas dianteiras, o corpo sai por inteiro, inerte enquanto retiram a placenta que o envolve. A égua descansa ainda suada, deitada sobre o gramado.

 

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Trecho do conto “Túmulo no monte Cáucaso”


Hoje o vento está mais frio. Apesar do céu azul, o vento está frio. Não sei especificar há quanto tempo estou parado aqui. A sombra das árvores cobre meu rosto, posso ver todo o jardim de entrada, a porta, a janela. Escuto certa movimentação dentro da casa, mas a porta permanece fechada. O vento está frio, mas o céu muito azul. Entre as folhas dos arbustos, à minha direita, vejo um pedaço da rua. Vazia. Posso observar, também, um pedaço do meu carro, vermelho brilhante.
Sinto minha mão trêmula, acho que é o peso que ela sustenta. Não estou acostumado ao peso do metal. Não estou acostumado ao peso da situação. Sou apenas um homem. O céu está azul turquesa e eu tremo sobre o Cáucaso. Tremo como o homem que encara os olhos do diabo. Porém, hoje a mão que treme, a minha mão, será aquela que castiga. Hoje serei eu quem escreverá o epitáfio neste túmulo, entre o mar Negro e o mar Cáspio.

[...]


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Livro: Contos do rio Estige

Autor: Luiz Fernando Pierotti

Gênero: Contos

ISBN: 978-85-64308-68-8

Número de Páginas: 120

Formato: 14x21

Preço: R$ 28 + frete