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Donny Correia

DONNY CORREIA

 

Autor dos livros Zero nas veias (Patuá, 2015) e Corpocárcere (Patuá, 2012), Donny Correia é poeta e cineasta. Graduado em Letras – Tradutor e Intérprete pela UNIBERO, e Mestre e Doutorando em Estética e História da Arte pela USP. Publicou os livros de poesia O eco do espelho (2005) e Balletmanco (2009). No cinema, escreveu e dirigiu os curtas Anatomy of Decay (2008), Brain Eraser (2008), Totem (2010), selecionado para a 34ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, e MADRYN (2012); além dos videoclipes High Shot, Macabea e Ways to distract, para a banda inglesa Severin. Atualmente é coordenador de programação cultural da Casa Guilherme de Almeida, em São Paulo.

 

 

Contatos:

Skook de Algarobas Urbanas


Conheça 03 poemas do livro Zero nas veias, de Donny Correia:

 


O PORÃO DAS CÉLULAS

para joão correia

para valdomiro boldrini


uma fila na farmácia pública: um exército
de células vencidas, se conforma

são semblantes e semblantes alquebrados desprovidos e calados
nulos, retorcidos

imersos na inércia
à espera de uma senha

há uma espera que se sustenta maior do que o tempo que lhes cabe
/ainda/

os tubos, as sondas, o pus os desmaios
a vida se esvai a vida /ex/ vai
no rebanho semimorto na farmácia pública

 

***

 

NÃO ALIMENTE OS ANIMAIS

 

os esquilos
sob agrados vêm comer na mão

continuam selvagens
como pipas lançadas às cegas mas comem na mão
viram‐se e somem voram‐se nas mãos mas viram-­se e somem

e nada há contra uma natureza soberba que os façam domésticos e exclusivos ícones de nossas mais perversas ideias fantasiosas

os esquilos nos odeiam a natureza nos odeia
só querem a nós de nossas mãos e cagam para os espinhos
de nossas vértebras eretas e  a cobiça dos olhos que veem  a vida como vitrine

como colecionistas uma soberba
mas, aos esquilos isso não diz nada roemos as unhas em sinal de protesto roemos o brio em sinal de detesto

morremos no trono imaginário da vida sapiente
suicidamos no salto do topo
do ego

os esquilos só correm e pedem nós
na grama

do Hyde Park

 

***

 

CREMATÓRIO

 

a fuligem de vida recobre a efêmera lírica do nada

o mínimo sentido em tudo quanto não foi

o resto finíssimo espalhado ao vendo do acaso final

era o calor da fornalha toda a síntese do   vital derradeiro

a última febre do corpo

a convulsão da passagem

um candelabro de luxo na carne, no osso
na desvida
que é um banquete para espectros vindos do soslaio curvo do tempo

embalagem de madeira fina
entalhes rebuscados que lacrimejam
o escuro desmatamento do plasma e seus glóbulos

de trás das unhas brotam laivos
da fragilidade humana

e elas seguem: labaredas precipitam
bolhas como beijos últimos roubados pela amante morte

 

 


 

Conheça 03 poemas do livro Corpocárcere, de Donny Correia

 

I

escaparam
pela cavidade de um ânus
estilhaços inimigos
sangue inocente de
tenra indecência
lábios...
espelho mirado ao avesso
escaparam ruindo
estilhaços, brio
brilharam: olhos de amianto
fogo na morta soleira

da varanda
à varanda veem-se estilhaços
sucumbirem
escaparem
pelo buraco amargo


***


II

velho curandeiro espírita
cujos guias decretaram:
pés díspares
reza austero por
dois centímetros que
o fazem pisar no
próprio quarto
/escuro/ (seco)
com sombras que sobrevoam
a imaxingação estéril
infame infância, sorvete de arsênio

ranho, doce ranho
cascas olfativas
degolam, ferinas, a carne interna
narina castrada
olor de vertigem


***

III

a libélula botou
ovos tristes
chocos
um punhado de lesmas
vida. e vida em que
não (a) há

um vidro
que emana separação
entre o fim e o indivíduo
um punhado de almas
sem alma, sem lama
verme verbo

verbo verminoso
fermento de agouro
sujo, falido
ressalvas famintas
no caibro dos nervos

 

***

 


 

Livro: Zero nas veias

Autor: Donny Correia

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 120

Formato: 14x21

Preço: R$ 38,00 + frete

 

 

 

 


 

Livro: Corpocárcere

Autor: Donny Correia

Gênero: Poesia

ISBN: 978-85-64308-76-3

Número de Páginas: 154

Formato: 14x18

Preço: R$ 30 + frete