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Renato Essenfelder

RENATO ESSENFELDER

 

Renato Essenfelder, autor do livro Febre, é jornalista formado pela UFPR, mestre em Língua Portuguesa pela PUC-SP e doutor em Ciências da Comunicação pela ECA-USP. Curitibano, mora em São Paulo desde 2001. Trabalhou em jornais como Folha de São Paulo e Metro e criou a revista Cadernos de Cidadania, do SESC-SP. Leciona Jornalismo nas universidades Mackenzie e ESPM, em cursos de graduação e de pós. Como escritor ganhou o prêmio Nacional de Contos da Secretaria da Cultura do Paraná, entre outros. Publicou ficções curtas em revistas e sites como Estórias, Minotauro, Originais Reprovados, Germina e O’Bule, além de figurar em diversas coletâneas. Febre é o seu primeiro romance.

www.renatoessenfelder.com

 

Contatos:

Skook de Algarobas Urbanas

 

 

 

Trechos do romance Febre:

 



36.6°


Água, espuma, água, espuma, água, espuma. Quantas vezes? Quase limpo. Água, espuma, água. Toalha, espelho, suspiro; escrivaninha, papel, caneta; coragem. Coragem? Revisar tudo mais uma vez. Reler cada palavra buscando a entonação perfeita. A declaração perfeita. Papel nas mãos, sublinhando a fala cuidadosamente decorada. “Acaba com a naturalidade”, alguém disse, e eu ri de escárnio daquela pirraça: viver é o que acaba com toda a naturalidade.
O natural das coisas é morrer, simplesmente.
Por isso, decorar cada palavra. Cada palavra decorada, até não restar nada de natureza, nada de acaso.



***

 

36.7o


“A  comunicação  humana  é  antinatural”,  eu  disse,  na  primeira  aula  a  que  ela assistiu. “E seu objetivo é nos fazer suportar a solidão e o absurdo de uma morte inesperada. Morremos todos, afinal, sozinhos.”
Percebi quando se impressionou, logo na primeira fileira, cruzando e descruzando as pernas com os olhos fixos em mim. Mas impressionou-se com o quê? A minha vaidade uivando e perseguindo o próprio rabo, violentamente. Vestia branco. Sua respiração tão próxima; sentia umedecer as palmas de minhas mãos.
– Mas não vamos nos abater com isso, vamos? Previsível é o que está morto. Os cadáveres são todos ordenados, os cadáveres são todos idênticos, quimicamente. A vida, ao contrario, é a diferença, é o singular. É caos. Cabe a nós vivermos nele: indignados, que seja, mas sem negá-lo jamais. Negar o absurdo, ordená-lo, seria negar, portanto, a própria vida.
Não era uma de minhas alunas. Observei-a discretamente ao longo de quase duas horas. Ela sorria, desviando o olhar. A franja negra cobria parte do rosto, contrastando com os dentes muito brancos que emergiam cintilantes na noite estrelada.

 



Livro: Febre

Autor: Renato Essenfelder

Gênero: Romance

ISBN: 978-85-64308-87-9

Número de Páginas: 108

Formato: 14x21

Preço: R$ 30,00 + frete