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Letícia Simões

LETÍCIA SIMÕES


Letícia Simões, autora do livro de poemas Daqui, em 1976, acenei para você, nasceu em 1988 e não sabe exatamente em qual cidade vive. Coleciona cartas,  dedicatórias de livros usados & declarações de amor. Formou-se em Comunicação, com breves lampejos por História e Artes Plásticas. É autora do livro de poemas Pessoas de quem eu roubei frases (7 Letras, 2011). Dirigiu o longa-metragem Bruta Aventura em Versos, sobre a poeta Ana Cristina Cesar e prepara seu segundo documentário acerca do escritor Rodrigo de Souza Leão.

Contatos:

Skook de Algarobas Urbanas

 


Conheça 03 poemas do livro Daqui, em 1976, acenei para você, de Letícia Simões:

 

lembra quando a gente costumava se amar?  era quase um sonho. pintado em amarelo e vermelho, a gente sorria e ouvia o mar. a gente era o mar. e aí que eu me lancei, de barco, vela aberta, jangadeira portuguesa a te navegar. inventamos palavras - todo um dicionário, aliás - com os nossos quinhões de felicidade (e arrogância). éramos arrogantes porque podíamos: daqui, de tarde, conseguia ver teu braço fino passeando pelo meu corpo. havia tanta languidão nas tuas pernas que era quase como se fossem minhas (eram minhas). lembra de quando eu te contei o mito grego da - não lembro mais o nome, jamais lembrarei; só ficou o lençol, tingido de promessas. eu tinha tantos dedos. outro dia fiquei pensando como seria (foi hoje) voltar a te ter - e lembrei da inglaterra, distante, fria e sólida, a reger meu coração. sou toda vísceras, você bem sabe. de olhos negros e mãos vazias, sou toda vísceras. mas a inglaterra e você me fazem suar: restaram os cartões-postais e os bilhetes de trem, que continuam guardados na mala. aliás: te contei que fui buscar aquela em são paulo? nesse momento, estou em um avião, voltando de belém para a nossa tão estimada cidade, e sorrio chorando, lembrando que um dia eu fui sua e você foi meu e tudo fez sentido naquela tarde em que éramos o mar. minha poesia anda distante sem você - povoada de tigres, relógios, labirintos e cercada de faunos & madeira - descobri esses dias que aquela salmoura das palavras vinha mesmo era das tuas vírgulas. mas tudo bem: a gente inventa outros oceanos.

um beijo.

 

 

***

 

com o oceano inteiro a navegar


a ponto de partir
escuto nossos olhares sorrindo
à distância

o azul ainda arde
na pele do mais recente
náufrago

me despeço como quem afia as garras

(estou ameaçada e repetida)

um dia iremos nos
encontrar
já sem a ânsia de controlar
as palavras

sorriremos
das cidades que construímos e
enterramos na velocidade do
azul profundo

depois mergulharemos

(cada um com seu próprio tanque
de oxigênio)

diremos:
um dois três


desapareceremos
junto às ondas

às memórias de alto
mar

***

 

de nova york para o rio, 10 de junho


então você cresce. você arranja um analista, começa a estudar filosofia e lê - em uma tentativa desmedida de dar conta da torrente de sentimentos – por quase dez anos. e você fala e cria hipóteses e fala mais e pergunta e ouve e lê mais um pouco para conseguir falar mais e perguntar mais e continua lendo em busca de resposta qualquer e passa a ter sessões de análise duas vezes na semana. você se descobre um ser razoável e razoavelmente forte e atento (em relação aos por quês e às razões infrutíferas do coração, da mente e da “alma”). e de repente, vindo de uma esquina, de uma esquerda – e quando digo esquerda, quero dizer de uma mesa no fim do corredor, aquela logo abaixo da janela, perto da planta falsa e da garota de aplique vermelho -, vindo dessa esquerda, você se depara com algo tão surrealmente avassalador que compreende não ter entendido nada. nunca.

 

tudo bem.

 

eu sei o que você está pensando agora. pode despejar todas as suas sílabas de amor. eu ando comendo zarathustra no jantar.

 


(você existe mesmo? às vezes parece que não.)

 

***

 

 


 

Livro: Daqui, em 1976, acenei para você

Autor: Letícia Simões

Gênero: Poesia

ISBN: 978-85-64308-86-2

Número de Páginas: 130

Formato: 16x23

Preço: R$ 30 + frete