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Edson Bueno de Camargo

EDSON BUENO DE CAMARGO

 

Edson Bueno de Camargo, autor do livro A fome insaciável dos olhos, nasceu em 1962 e mora em Mauá – SP. Poeta, pedagogo, fotógrafo extemporâneo e entusiasta de arte-postal.  Publicou: cabalísticos (Orpheu – Editora Multifoco – Rio de Janeiro – 2010); De Lembranças & Fórmulas Mágicas (Edições Tigre Azul/ FAC Mauá -2007); O Mapa do Abismo e Outros Poemas (Edições Tigre Azul/ FAC Mauá -2006),  Poemas do Século Passado-1982-2000, participou de algumas antologias poéticas e publicações literárias diversas: Babel Poética, Zunái, Germina, Meiotom, Confraria do Vento,  O Casulo, Celuzlose, entre outras.  Escreve no blog: http://umalagartadefogo.blogspot.com

 

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Conheça 03 poemas do livro A fome insaciável dos olhos, de Edson Bueno de Camargo:

 

a fome


recobrou o olho
e este tinha fome
a fome insaciável dos olhos

e o olho cobrou a fome
desde os tempos imemoriais da fome

o quanto dar de comer ao olho
se este não se sacia

quanto de velhas fotografias
tanto de livros amarelos
jornais dobrados até se tornarem quebradiços
cartas de amor não correspondido
e flores e frutos secos guardados em gavetas

quanto de moedas antigas
de quinquilharias

a fome voraz de papéis velhos
e dedos envelhecidos
óculos para miopia

de tantos e todos tempos e temperos
que calaram em renascimentos

e aí se destilou o dia
com a luz coada
de olhares furtivos pela janela
e seus vidros ensebados e turvos
cor que se esmaecia

***

 

óleo



o olho caminha pelos ladrilhos
procuro o espelho
onde não está mais
(mais uma vez
traído pela memória)

a casa antiga
insiste em
esconder-se nas paredes da nova

como se seus escombros enterrados
mantivessem-se vivos
(a custa de parcas lembranças)

as sombras macias do tempo
de seus fantasmas com cheiro
de sal
(um mar no interior de cada aquário)

enganam-se todos
que acreditam em memórias pétreas
estas traíram a palavra
e a palavra é tudo que nos resta
esta língua inchada de versos apodrecidos
que têm de ser extirpados com regularidade

a calva branca das letras
ósseas nadadeiras de celacantos
esquecidos de serem extintos



as noites mal dormidas de pesadelos
e esta palavra que brota do chão
como óleo negro

a alma da casa nova
às vezes se adoece da sepultada

***

 

todas ausências


1


o menino
seus olhos de pires
emulando uma coruja
e o brilho de pios agourentos

facilmente se assusta
e o tempo todo
foge do dia

dentro de seus sonhos
todas as noites
cobras engolindo pedras
digeridas
carcomidas
defecadas
em limpos diamantes

tudo sob um céu azul cristal
dia eterno
e os olhos bem abertos



2


a menina tímida desengonçada
tem os olhos
rasgados no rosto
trabalho de arado cirúrgico

o útero
sempre à luz do dia
a luz do mundo
à vista de todos
aos que quiserem ver
e aos que não

não se admira
ter tido cria tão cedo
a crianças semitransparentes
que nunca tiveram
solidão ou escuridão

sonha com serpentes
vagando em desertos vermelhos
o cheiro de sangue nas ventas
e o rosto materno nunca visto



3


à noite
menina com lágrimas e espigas
senta-se sob a grande árvore
sob a sombra da noite

chora por todas ausências
os filhos
sempre alçam voo
assim que nascidos


 

 

 


 

Livro: A fome insaciável dos olhos

Autor: Edson Bueno de Camargo

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 100

Formato: 16x23

Preço: R$ 30 + frete