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Marcus Groza

MARCUS GROZA

 

Marcus Groza é palavrero, professor e devoto do céu violado. Autor dos livros Do Buraco à Poça (Patuá, 2013) e Sossego Abutre (Patuá, 2015). Graduado em Filosofia (USP), mestre em Artes (UNESP), atualmente é doutorando em Artes Cênicas (UNIRIO) e coeditor da Revista Abate.

 

 

Contatos:

Skook de Algarobas Urbanas

 

Conheça 03 poemas do livro Sossego abutre, de Marcus Groza:

 

Desmantelo

 

desculpa
mas eu disse
que era desleixado
de todo modo
assim ficamos quites


o seu zoológico particular
que você deixou aos meus cuidados
esqueci de porta aberta
o seu cão bicéfalo hoje azeita
a roda dos carros
e late
decepou à unha a outra cabeça
que você nele tinha implantado


o seu cirquinho de pulgas de menino
eu ia preservar juro
mas caiu no vão entre o trem e a plataforma
as pulgas desinibidas fugiram logo
as mais tímidas ainda adornam
um picadeiro de borracha improvisado
para as suas quedas sem aplauso
e promovem sessões de sauna pras baratas

 

antes que eu soltasse as feras
dia desses deu um desgraçado quebra-quebra
um besouro veterano de guerra
disse para uma das baratas voadoras
que ela voava às tontas toda lerda
mas nem tudo é desmantelo


há certo consolo
do que foi o seu zoológico
inda resta um unicórnio
e os gatos
que agora moram na vizinhança
e nos visitam de vez em quando

 

***

Sossego Abutre


não me insulta o teu açúcar
o teu sol já não me insulta
não me insulta o teu silêncio
o carinho mal feito o gosto
de caqui verde a tua sarna


não me insultam as filas
a burocracia a luz no fim
do túnel já não me insulta


não me insultam as queloides
as câimbras a existência dos Estados
Unidos já não me insulta


(às vezes acontece que mesmo
o Cristianismo já não me insulta)


o mais são calos sensíveis: sangro

 

***

 

Floração


eu te cultivo
lavoura e vício
estandarte luminoso
um menino que tenta arranhar o vento
a bruxa que almoça cigarros
aos domingos
sempre
a exuberância
não o desperdício
a correnteza de carne que se derrama a oeste
devoção e veneno
a sombra vacilante daquela que veio me arrancar a pele
a esperança personificada em um guardanapo que amasso
a tirania da falta que fazes
em tudo isso
e em cada canto da casa
acumulado de poeira
e até nos telhados quando por muitos meses não chove
feito pássaros

que

ervas daninhas
semeiam nas árvores
eu te cultivo
lavoura e vício

 

 

 


 


Conheça 03 poemas do livro Do buraco à poça, de Marcus Groza:

 

Da janela

aceno um rio
desdobrado
cavalo

arrimo nuvens de gala
hoje estou mago

não me prostro
diante da espera
mas já nem disparo um potro
que alvoroça e emperra


***

 

Oroborus, nome da fruta

a fruta-pão que dava no pé de guerra
pântanos e túneis espantaram
depois de engolir as feras
e o verde todo gramado
hoje
você rasteja
feito um soldado
até mais ágil e feroz
nem espera fome de almoço
o seu corpo é todo febre e pescoço
garganta em que fácil fácil cabe um cervo
e agora de conluio com desertores e adeptos
me expulsa de dentro do casco durante os anos bissextos


***


Entre primos (ou tatuagem)

o limão verde
sempre nos servia de lápis
pra escrever nas paredes
e agora serve não só
à nossa adolescência em febre
mas também quando brincamos adultos
de língua e limão sobre a pele

eu salivei a Oceania
na sua coxa direita
você não se contentou
em por a Ásia nas minhas costas
desenhou logo a cartografia
de outros planetas
e exaustos deitamos a fim
de que nos revelasse o sol


 


 

 

Livro: Sossego abutre

Autor: Marcus Groza

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 200

Formato: 14x21

Preço: R$ 25 + frete (Livro em pré-venda, entrega após o lançamento. Amigos e leitores que realizarem a compra antes do lançamento receberão o livro autografado após o evento. Imperdível!)

 

 

 


 

Livro: Do buraco à poça

Autor: Marcus Groza

Gênero: Poesia

ISBN: 978-85-64308-77-0

Número de Páginas: 90

Formato: 16x23

Preço: R$ 30 + frete