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Sabrina Sanfelice

SABRINA SANFELICE

 

Autora do livro de contos NósVósElas, Sabrina Sanfelice nasceu em Araras (SP), mas considera que o sangue de suas veias contém a mesma água da pequena Analândia – local onde vive sua cabeça, no topo do morro do Cuscuzeiro. Cresceu no meio do mato, cercada de histórias de saci misturadas com benzedeiras, quando bicho-de-pé não era doce cor-de-rosa e a morte de qualquer um mexia com a história de todos. Nesse pequeno mundo, teve contato com suas primeiras referências literárias que a fizeram (es)colher seu universo atual: é vizinha da Casa do Sol de Hilda Hilst, onde hoje é o Instituto Hilda Hilst (IHH), o qual faz questão de ajudar em diversos projetos. É Mestre em Multimeios pela Unicamp, graduada em Jornalismo, fotografa desde 1996 e escreve desde o antigo prezinho, do caco de tijolo ao seu atual blog literário (http://www.goodnightcaptain.blogspot.com.br/). Participou, com suas fotografias narrativizadas, de diversas exposições individuais e coletivas, assim como festivais internacionais (Paraty em Foco e FestFotoPoa).

 

Contatos:

Skook de Algarobas Urbanas


Conheça o primeiro conto do livro NósVósElas, de Sabrina Sanfelice:

 

Bastet


Uma das primeiras regras que aprendi com os gatos é não dar a ninguém a possibilidade da estreia. Entendi isso desde o começo. Todos os que não têm o início se acostumam mais fácil com o fim. E eu estou apenas tentando ser gentil quando proclamo essas palavras. Nada é tão esperado quanto o fim, nem mesmo o começo. Os gatos, enquanto esperam a noite, sabem que é chegada a hora de abrir as pupilas, de enxergar claramente o término da luz, quando escondemos e revelamos a nós mesmos, sorrateiramente, em cima dos muros. Quando, no breu do âmago humano, somos todos pardos, iguais por natureza.


Estava fadada a enfrentar o término desde o dia em que nasci. Minha mãe, com todas as dores do parto, chorava e gritava pedindo que eu, enfim, nascesse. A segunda filha, esperada, planejada. Era, com toda a certeza, predestinada a ser a última escolha da família. O último ser que teria essa linhagem específica de cruzamento. Quando percebi meu destino, revirei-me toda até fazer minha mãe precisar de ajuda para me expulsar de lá de dentro. Os arranhões ficaram estampados no útero por anos, simulando a subida inóspita de um felino encurralado. Alguns anos depois, traumatizada com algo que não tinha sido como ela queria, minha mãe teve outra filha. A mais velha foi a estreia, longe de mim querer esse posto de soberania, um trono e uma coroa. A mais nova, a expectativa do fim. Eu observava atenta o meio, o buraco entre todos os que me cercavam.


Minha avó materna me olhava desconfiada com seus olhos ciganos. Dizia que minhas mãos eram longilíneas e meus olhos puxados, características de alguém que quer alcançar o que não pode, que se infiltra no alheio, que vive a vida dos outros, alma perdida, sem casa. E quando me via, fazendo o que fosse, era como se quisesse me dizer que conhecia meus segredos futuros, que eu viveria entre as pessoas, mais especificamente, homens, esbarrando-os, cerceando-os como um gato que há pouco estava aqui, roçando entre as pernas e, de repente, está lá, em cima do muro, encarando com retinas ariscas. Menina! O gato quer a casa e não o dono! É certo que desconfiava que eu seria, talvez, uma libertina. Mas a casa que eu buscava não era feita de tijolos e um pires de leite quente tilintando no chão. Eu, alguém que transita entre os mundos, como um felino, animal de poder nas bruxarias e xamanismo, queria a casca que carrega a alma. O corpo, a mente e, insanamente, o coração.


O primeiro homem que tocou meus lábios vinha de longe. Saíra de sua cidade há dias e buscava, entre as garotas abobadas pela presença de um ego com passado comprovado, alguém para mostrar quem já tinha sido. De longe eu o olhava assediar, contar histórias e rir jogando a cabeça para trás como um rei. Os homens que procuram a estreia são os mesmos que habitaram os corpos dos soberanos no passado. A alma, ainda infame, não consegue viver sem a guerra pelo poder de ter o que ninguém mais pode ter. A única vingança que temos contra eles é que a história permite-nos ter a experiência do que já foi roubado sem escrúpulos, quando a virgindade era troféu e a inocência, um tesouro inteiro. O passado nos permite criar possibilidades de transformar o inédito numa simples arapuca.


Passei por ele, intacta, íntegra, intocada pelos seus curiosos encantos que repercutiam nas mentes ingênuas das pequenas moças recém-saídas dos romances heroicos. Pela visão periférica eu sabia que ele me acompanhava, passo a passo, enquanto eu me aproximava do portão de minha casa, na qual entraria sem olhar para trás. Precisa-se de muito pouco para atrair. Não necessariamente da experiência em si. Os gatos, por exemplo, atraem-se constantemente por bobos insetos que parecem não enxergá-lo, o que os permitem ser imprevisíveis. Mas, se tomarmos ambas as experiências, podemos apenas parecer distraídos, como um louva-a-deus orquídea em sua fascinante habilidade de vestir-se de flor sem mostrar suas presas.


Poucas horas depois, atrás do muro do ginásio, ele me beijava exatamente como eu quis: sem nunca saber que tinha sido o primeiro. E se por um dia ele ousou pensar que poderia ter me marcado por uma estreia, no próximo, ao me ver saindo de mãos dadas com um de seus amigos e olhá-lo pelos ombros, piscando um até logo, teve certeza que nem chegou perto de um início, mas logo teve o fim que mereceu. O fim dos que subestimam a natureza do equilíbrio entre os opostos, de quem não aceita, com humildade, a santidade e a pureza do despertar alheio.


Mas talvez eu nunca tenha entendido alguém que nega o que quer. Um gato não entende ou suporta o charme do próximo. É ele o único que tem o poder de negar. O segundo homem com quem tive um contato que poderia se transformar numa estreia, talvez a mais esperada por todos os seres humanos, a profanação do corpo, o rompimento da alvura, não tinha nenhuma necessidade de orgulho ou vaidade com essa função. Era o oposto. Ele se negava. Era egoísta. Não queria profanar a única fonte de inspiração que tinha. Muitos anos mais velho, ele gostava de observar com seus olhos impuros a minha pureza. E eu quase implorava para que ele quisesse e ele queria, mas não me dava a chance de ser uma mulher. Por fim, dormi ensandecida e acordei pensando que esse rito de passagem, o cio, não era predestinado a um único ser. Os gatos acreditam que a necessidade comum seja suficiente para justificar os diferentes gemidos no telhado em noites quentes.


E tinha que ser agora, a natureza não espera sentimentos, nem mesmo o amor, por mais que romances baratos tentem controlar as mulheres como se elas não fossem meramente animais. Então, fiz minha própria estreia como qualquer homem a faria. Dei uma taça de vinho a um outro qualquer e no terceiro brinde – no qual ele brindava ingenuamente a chance de ter-me e eu, silenciosamente, minha estreia – já estava selado o fim. Bêbado, ele mal sabia que a mulher que subia em seu colo e o encarava, apertada num carro velho no alto de um morro, era apenas uma menina virgem com pouco mais de 15 anos. Ele ganhou um presente novo com aspecto de usado, assim como sua própria função na curta existência pela minha vida. Um fim, finalidade, sem uma única gota de sangue para comprovar minha falta de uso. E tudo isso usando a experiência do homem que resolveu me negar o único começo que concedi espontaneamente. Sejamos humanos, mas antes, admitamos nosso caráter animalesco!


Todos os terceiros que eu pudesse descrever nessas linhas seriam insuficientes para a potência do fim causado pelo último. O último é o pior de todos os primeiros. É alguém que precisa de drásticas consequências para passar despercebido, para que talvez não entenda sua importância ou papel. É por isso que o gato não morre perto da casa que escolheu morar. Ele não tem coragem de se despedir ou mesmo de profanar o único lugar pelo qual dedicou sua vida. Meu último gato encontrei a alguns metros de casa, morto há algum tempo, sem nem sinal de como isso aconteceu. Uma lacuna abriu-se em meu peito, mas respeitei sua vontade de não me dizer adeus. Ele não me concedeu inícios ou fim. Ele me escolheu e isso já é o bastante para qualquer ser. Mas nem sempre as pessoas se contentam com o que lhes cabe espontaneamente. Elas querem mais, querem ferro e fogo, marcas que não saem, coleiras e chantagens. Eu só queria o óbvio para quem, com o tempo, domesticou-se com a humanidade.


Passei por casamentos que antes de serem casamentos já tinham sido qualquer outra coisa que profanasse a ideia inicial de um casamento em si, como morar junto. Num casamento de verdade não é assim. Então, nunca casei com ninguém da maneira certa pela primeira vez. Nem meu primeiro filho teve a dádiva de se dizer uma estreia em minha vida materna. Fiz questão de abortar antes de conceber um ser vivo, portanto, outros seres habitaram meu ventre antes daquele. Bendito fruto que teve a audácia de tentar nascer homem pela primeira vez de dentro de mim! Pobre criatura! Cresceu ouvindo histórias do quão desejado era o outro, natimorto, que mesmo tão malformado, via-se nitidamente o sexo, um menino. Lamber a cria é só enquanto ainda estão vulneráveis, com os olhos fechados para o mundo.


Precisei de sete vidas para chegar ao fim. A única coisa que me traía era a intensidade pela qual eu me dedicava, assim como um felino que prevê o próprio fim, à casa escolhida. Me esfregava, ronronava em seus ouvidos todas as minhas carências, comia e dormia como se fosse o Éden quando o tinha por perto. Ficava horas a seus pés, sempre perto, mesmo longe, como na calada da noite, quando saía para espairecer pelos muros, mas ligava meus radares internos, como os bigodes de um gato, que garantiam minha volta, sã e salva. Eu queria voltar. E quando sentia qualquer tempestade chegando, corria para sua porta, molhada, completamente. E ele abria com um pires de leite quente, me chamando, pss, pss, pss. Eu entrava, com as quatro patas no chão, estreitando-me charmosamente pelas paredes antes de lamber cada gota do que me era oferecido. Como um animal doméstico, dormia agradecidamente em seus braços.


Uma noite, porém, subi em seu telhado. Entre as telhas eu o espreitava, ansiosa por perceber minha falta. Demorei-me um pouco mais a olhar a lua, queria que ele me chamasse para que eu, de um lugar improvável, surgisse sem dar explicações. O gato subiu no telhado – pensava ele prevendo o risco. Com medo de minha queda e, consequentemente, o fim, meu fim, seu fim, nosso, ele trancou a porta. Os humanos, quando se desesperam pelo final, tendem a limitar-se ao começo. Mas não tínhamos um começo. Então, sem referências como um animal de rabo cortado, ele cercou-se de uma falsa paz, muda, o silêncio de quem não sabe o que esperar de si mesmo. Meus miados não surtiam efeito e meu desespero me fez voltar às ruas, procurando abrigo provisório em casas alheias.


No outro dia, a porta estava aberta, como quem espera pelo óbvio. Me dei banho, assim, em sua frente, como se minha necessidade de assepsia condenasse meus atos anteriores. E dormi sem nem sequer comer, encostada numa almofada qualquer, o dia todo. Bem que ele tentou me pegar no colo ou alisar-me como quem se desculpa pela inferioridade. Mas eu só abria os olhos por frações de segundos, desinteressada pela pequenez de um sentimento que eu simulava que tinha aos montes. Então, ele se mantinha humilde, olhando por cima dos óculos, sorridente, enquanto lia num cantinho quente, como quem me convida a brincar com novelos novos. E eu me espreguiçava várias vezes antes de enroscar-me por suas tramas tão aconchegantes e necessárias, as quais ele apenas achava que eram um simples brinquedo.
O cheiro daquilo que gostamos de habitar é o único perfume que nos dá a certeza de que estamos em casa. Com ele, a memória poderia fixar-se por horas no prazer de estar ali mesmo quando eu estava longe, procurando atrativos menores, como caçando passarinhos ou, simplesmente, sendo. Os animais não se parecem com nada, apenas são o que são, fazem o que têm que fazer. Mas, não se despem das sutilezas divinas quando são misturados com os homens, que se acham deuses. Então, os gatos, semi-humanos, deuses da mitologia egípcia, pressentem o fim. São dotados da visão entre o corpo e a alma, transitam entre os mundos de uma maneira quase imperceptível. Dizem que no Egito antigo os homens raspavam as sobrancelhas em luto quando um gato morria. Imagine por um momento um homem egípcio retirando um traço estético de sua humanidade, justamente o que fica entre os olhos e o terceiro olho, assoprando o véu que o separa de enxergar um mundo que normalmente não veria.


Não voltei para casa nesse dia. Sabia que era proibido dar adeus no mundo em que vivo. Seria como contar-lhe que o escolhi para o fim, quando, na verdade, apenas o escolhi para habitar. Minha alma cansada já tinha morado, espontaneamente, em todo seu ser. Privei-o de todos os começos para não frustrá-lo com a chegada certeira do final. Começos não existem, são escolhas, e eu o tinha escolhido para a única certeza que todos os seres têm: o fim. Eu só precisava lembrar do cheiro e me estirar num mato qualquer, ao longe. Ele ainda me esperou por dias e noites, olhando telhados alheios, chamando, aguardando a eterna volta de quem acreditamos que esteja, de alguma forma, condicionado a nós. Ficou com raiva quando não voltei. Esbravejou meu não apego como a pior forma de não amar. Não ritualizou minha perda e nem sequer imaginou que esse fosse o fim, exatamente como eu queria. Tratou logo de arrumar um substituto, não mais da mesma espécie, alguém que convenientemente abana-lhe o rabo rotineiramente, com ou sem motivo, deixando o fim sofrido para um ego que se acostumou com o amor servil.


Pobre ser aquele que tem a verdade e a natureza efêmera de todos os seres vivos e prefere apegar-se à única certeza que nunca terá: a da necessidade de um começo quando precisamos somente do fim.

 

 


 

 

Livro: NósVósElas

Autor: Sabrina Sanfelice

Gênero: Conto

Número de Páginas: 120

Formato: 14x21 - acabamento em capa dura

Preço: R$ 37,00 + frete