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Karina Limsi

KARINA LIMSI


Karina Limsi, autora do livro Contos dos que plantam árvores, é Ilhense de nascença e alma, mas paulistana por intuição. Nascida em uma quarta-feira de cinzas de 88 em Ilha Solteira, pulou muitos carnavais de salão interiorano, fez ballet clássico, estudou percussão erudita e frequentou assiduamente um dos maiores e mais tradicionais festivais de MPB do país, assim, na varanda de casa, fazendo aguçar a percepção, inspirando seus escritos. Formada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – CPAR, tem seus estudos e práticas voltadas às áreas social e educacional na abordagem histórico-cultural, tendo como interesse principal a infância. Desenvolveu projetos de utilização de narrativas – contos de fadas – na educação infantil e oficinas de valorização da criatividade no contexto escolar, interviu brevemente junto à Secretaria Municipal de Educação de Nova Bandeirantes- MT e no Programa Recomeço, do governo do estado de São Paulo. Nas horas vagas rabisca desenhos que chama de artes plásticas, ocupa-se com artesanatos, arrisca-se nas primeiras parcerias como letrista e tenta ao máximo inserir música e literatura em sua atuação profissional. É mantenedora de um blog de poesias, contos e conversa fiada e premiada na categoria conto no 48º Femup – Festival de Música e Poesia de Paranavaí-PR – com o conto Soneto Suicida no ano de 2013. No mais, considera importante salientar que seus maiores feitos concentram-se no fato de que escrevia poeminhas nas provas de matemática pra tirar zero com dignidade, alcançou bom desempenho em literatura e redação no cursinho, escreveu a homenagem à paraninfa no dia de sua formatura, produziu seu próprio trabalho de conclusão de curso sem choramingar, além de escrever vários artigos acadêmicos e não ter publicado nenhum.

Contatos:


Conheça um conto do livro Contos dos que plantam árvores, de Karina Limsi:

 

 

A Jaqueira de Irene
Ouvindo: Hora do Adeus – Luiz Gonzaga
O vento – Dorival Caymmi
Teresinha de Jesus – Cancioneiro Popular


Certa vez, conheci o vento,
Ali, por detrás de olhos cor de espelho,
Vestido de véus cor-de-noite,
Mãos nos bolsos, de intimidar.

N'outra vez, eu olhei o vento,
Lá, por debaixo de palavras inconclusas,
Calçado de buquês de dama-da-noite,
Pés nos tempos, de esvair.

Noutra vez, eu toquei o vento,
Aqui, por cima das entrelinhas,
Despida dos laços de açoite,
Corpo, inventos, de abstrair.

Pessoas que gostam de sombras,
Lugares que guardam paisagens,
Mulheres que falam com imagens,
Todos nos meus fios cinzas dos cabelos,
Do relógio anti-horário,
Do ver desver totalitário,
Da sinestesia, do ser , eterno vir, ou ir,
Ir e vir,
Direitos de algum Senhor.



Havia sido um dia extenuante para mim, talvez por ter sido uma semana, um mês, um ano desses que a gente só se recorda por ter comido nele o pão que o diabo amassou. Olhava aquele restoio de jardim de minha avó e voltava num tempo menos ácido, menos melancólico, menos irritante, quem sabe. É bem verdade que a melancolia pode estar nos olhos de quem a enxerga e a coloca como aspecto central de determinada situação, mas qualquer um que olhasse aquele jardim sentiria algo semelhante ao que senti. Senti mais profundamente porque me lembrei como se estivesse revendo um filme cada detalhe exuberante daquele jardim.


Pra começar, os muros agora azuis, antigamente branquíssimos e de tão brancos pareciam brilhar no escuro. Aquele não era um jardim de plantas de calor, mas de todo tipo de planta que minha avó quisesse cultivar por lá. Eu via com clareza desde de esquina, antes de chegar o pé de rosa branca, dos inúmeros pés de rosas de vários tons de vermelho, de um outro pé de rosas que nasciam amarelas e arroseavam com o tempo. Era muita rosa e muita paciência no cultivo. Havia tudo que é sorte de musgo, trepadeira, erva, samambaia e um enorme pé de romã encostado no muro. Ninguém tinha um recanto tão bonito quanto o da minha avozinha. Sem contar no pomar espalhado pelo imenso quintal, os pés de manga, de goiaba, de poncã, laranja, canela, maracujá, acerola e claro, a jaqueira.

Saindo dessas atormentadoras e belas memórias, deixei de olhar o jardim melancólico e adentrei a sala, não a encontrando na poltrona em que costuma sempre estar, estendi os passos até o corredor e a percebi vindo ao meu encontro, com dificuldade, apoiando-se na parede, pensando em alcançar a cadeira de rodas que a auxiliava no deslocamento de todo santo dia:

- Quer que eu pegue a cadeira, vó?

- Não fia...só vou me apoiar...a fia é um ipê!

Não devo ter ficado mais de dois segundos em silêncio, mas foram os dois segundos mais imensamente reflexivos do meu ano. Eu havia acabado de deixar os esboços deste livro para olhar o jardim, e havia também me lembrando dos lindos ipês da minha cidade natal que tanto me inspiram nesse empenho. Como podia ela, minha avó, dizer-me que eu em algum sentido me assemelhava a um ipê? Embasbaquei e lisonjeada questionei:

- Ipê, vó? Por quê?

- Porque ipê é forte, igual a fia!

- Tá certo...

As lágrimas eu segurei até alcançar a porta da cozinha e depois o quintal, mas deixei cair mirando a jaqueira, inundando-a. Minha avó agregando a mim a fortaleza que possui um ipê foi algo sem tamanho. Lembrei-me de ainda mais detalhes da passagem dessa mulher por minha vida, desde a escolha do meu nome. Sempre com um ar de vanguardismo, vó Irene gostava de enaltecer sempre que a escolha do meu nome havia sido deveras óbvia. Havia uma cigana em determinada novela daquele ano de mil novecentos e oitenta e oito, cujo nome era Karina, e desta forma, não haveria nome mais adequado para a neta que apontava. Ainda que analfabeta, exigiu que fosse Karina com “k”, e acataram sem pestanejar.

Era – e ainda é – uma criatura branda, nascida numa terra de nome Riachão –  que não sei bem ao certo a que município de Alagoas deu origem –  a mais nova de 9 filhos, sendo: Manézim, Satiro, Dito, Miguel, Zé Marques, Zefinha,  Nena, Lela e Vó Irene. Era sabedora dos perrengues de subir em pau-de-arara lá no Norte e de dar a cara pra bater em São Paulo, tendo perdido a mãe aos 7 anos de idade e o pai aos 11 e vivido o diabo na mão de quem lhe conduzia pela vida. Disse que eu era forte. Uma mãe de quatro filhos paulistanos, mentiu a idade para se casar com seu primo primeiro, criou cada um com o mesmo amor, casou todos de papel passado, abriu a casa e o coração aos genros e noras, mimou os netos com conhecimento e não com presentes, que me fazia correr ao seu encontro quando vinha nos visitar com sua saia estampada de penas minúsculas e a blusa azul royal de lã, se apoiando em meu braço e me fazendo chorar.

Sentei-me no banco de toco abaixo da jaqueira e fiquei admirando-a sem pressa, quando ouvi o ranger das rodas da cadeira, aumentando de volume e assim cada vez mais. Vó Irene, ali, do meu lado olhando também aquela jaqueira. Ficou comigo, lembrando dos remotos tempos em que ela cuidava daquele quintal sozinha, falando das tantas frutas que colheu naquele pedaço de chão, e das tantas frutas do Norte da qual eu nunca tinha ouvido falar, e falamos, falamos muito e muito sobre tudo que íamos lembrando. Eu a olhava nos olhos e sentia a vibração das retinas quando o assunto pendia pra saudade. Tia Lela havia nos deixado fazia pouco, e tio Zé Marques havia falecido pouco menos de um mês depois dela. De tantos irmãos, apenas vó Irene se encontrava entre nós, e ainda que debilitada, estava muito saudável e tranquila. Ela marejava os olhos e passava a mim todo aquele mar de recordações.

Enquanto falava de suas histórias eu me recuperava das lembranças das minhas. Fui vendo em minha frente as tantas bugalhas – saquinhos costurados à mão para jogo infantil – que ela mesma preencheu de areia pra que eu ocupasse minhas tardes, dos espanadores de pó que ela me deu para servirem de bonecas cabeludas, das jorradas de álcool canforado em minhas pernas aferroadas pelos marimbondos. Era olhar pra ela e sentir aquela vontade de pentear seus cabelos tão lisos e prateados, como desde pequena me fascinou. Como é que eu podia imaginar a vida sem aquelas histórias e ações tão sensíveis da vó Irene? Não dava. A segunda lembrança mais remota que tenho é dela, me cantando Teresinha de Jesus em meu quarto escuro, entre a cozinha e sala da casa antiga, quando eu tinha três anos. Quando sentia solidão, fechava meus olhos e via figuras estranhas que acho que só criança vê – porque cresci e nunca mais vi – cantava Teresinha e conseguia dormir.

Começou ela a contar-me histórias que nunca tinha me contado, também sobre solidão. Disse-me que vez ou outra ainda lá no Riachão, quando alguém zangava com ela e ela se via desprotegida, corria pra cima de um pé de jaca que havia no quintal. Falou-me das dificuldades da juventude, do muito trabalho, da infância dura, de saudades, de criar os filhos, de fé e calma. A partida de tio Zé Marques ainda latejava na gente, e ela olhando a jaqueira destampou:

- Esse pé de jaca aqui só sai quando ele morrer, porque não vou deixar cortar. Essa é a lembrança do Zé, porque esse pé foi ele quem plantou.

- É vó, ele descansou agora, né?

- É fia, cada um tem sua hora. Eu não tenho inveja de quem morre e também não tenho pressa, nem medo.

Fiquei pensando que a partida da jaqueira dependia dela própria. A vó não ia deixar o pé de jaca sair de lá enquanto ele não morresse, isto é, nem que ela morresse antes dele, ele sairia de lá em tempo inadequado. Acredito totalmente. Em território de vó Irene nada se move se ela não quiser, ela estando presente ou não! As empregadas que passaram pela casa poderiam testemunhar quanto a isso. Não existia naquela casa isso de tirar o pó dos móveis e mudar os penduricalhos do lugar, não. Era tirar o pó e colocar cada coisa exatamente onde estava antes. Paramos com as histórias tristes e retomamos as menos dolorosas, mas meu pensamento voltava à cena que tinha visto dias antes, no velório do tio Zé: Minha avó resumindo em pouquíssimas palavras o que aprendeu sobre morte, sobretudo, sobre vida:

- Fia, me leva ali!

Pediu minha avó em voz baixa à minha mãe que a aproximasse de meu tio, ali onde estava sendo velado, tocando-a no braço.

- Pronto mãe.

Minha mãe, com os olhos rasos d’água atendeu ao pedido e observou sua mãe observar o irmão, como se o analisasse em silêncio. Minha avó o tocou levemente nas mãos, próximas aos crisântemos, e respirou fundo.

- Vamo, fia. Já quero ir...

Saíram as duas pela porta maior do velório, vindo em minha direção, naquele típico momento de silêncio absurdo que pesava feito âncora no mar. Eu, segurando o choro, tinha medo do que minha avó me pudesse dizer quando passasse. Aprendi a maior lição da minha vida quando obtive a resposta da  minha pergunta:

- Já vai, vó?

- Vou, fia! Já vim aqui, já vi o Zé...vi que ele tá bem. Agora posso ir embora.

E sem dor nas faces, serena, me ensinou que morrer é isso. É estar bem, de vez. A essa altura eu já não sabia se forte era eu por ter sido comparada a um Ipê, ou se forte era a minha avó que desde pequenina tirou a força das jaqueiras pra continuar pura, límpida, em paz. Penso que o luto, o vazio, a ausência, são as maiores dores que, como humanos unidos por vínculos, somos capazes de suportar e em um segundo momento superar, mas nunca, em hipótese alguma para de doer. Não deveria ser assim. Se tivéssemos com clareza a certeza de que ficamos bem quando partimos, talvez fossemos capaz de não sofrer tanto. Ocorre que em vida, partimos e nos partimos tantas vezes, é sempre tanta dor que a morte parece até a maior partida de todas e que trará consigo também a maior dor de todas.

Seja como for, aprendi mais de jaqueiras que de partidas, da passagem leve do vento mais que da corrida densa do tempo, da força que existe em minha vó mais do que da força que ela me imputou. Quem sabe um dia eu entenda os motivos pelos quais o jardim clama tanto por novas mãos cultivadoras. Quem sabe eu já tenha entendido e busque a cada vez que fito a jaqueira um pouco de coragem pra fincar as mãos naquelas terras.

 

 


 

 

Livro: Contos dos que plantam árvores

Autor:
Karina Limsi

Gênero:
Conto

Número de Páginas:
160

Formato:
16x23

Preço:
R$ 36,00 + frete