learnex

Renata Corrêa

RENATA CORRÊA

 

Autora do livro de contos Vaca e outras moças de família, Renata Corrêa nasceu no subúrbio carioca e foi criada bem distante da imagem glamour imagético da cidade. Zona norte é diferente. Atualmente é roteirista e já fez longas metragens, séries, documentários e programas de TV. É também idealizadora do Grupo Livre de Criação Literária.

Afirma: Escrevi o livro literalmente enquanto amamentava minha filha, durante as madrugadas onde ela passava acordada pendurada na minha teta.

 

 

Contatos:

 

 

Prefácio

por Clara Averbuck

 

Mulheres trabalhadoras, mulheres equivocadas, mulheres elitistas e mulheres assassinas. Mulheres com coração, mulheres sem memória, mulheres com rancor. Mulheres sem redenção. As mulheres da Renata são as mulheres do Brasil, do mundo, multidimensionais em suas curtas existências, com histórias surreais e histórias que podem estar acontecendo agora, logo ali, no final da rua, no seu prédio. A dona de casa que não suporta sua vidinha pacata, a moça que se apaixona pela estátua do poeta, a truqueira, a mãe que quer fugir de sua vida, a moça com alma de cavalo, todas elas caminham por aí, algumas delas dentro de nós, outras pelas calçadas, por dentro de outras, nos ônibus, nos bares, nos mares, na vida. Com a destreza de uma escritora-roteirista, ela nos leva pra dentro dessas mulheres, pra vida delas e até seus desfechos. A lágrima equilibrista é sua, Renata, e as suas mulheres são todas, quase todas, muitas. As suas mulheres são, um pouco e cada uma, feitas pedacinhos de nós todas.


Conheça 01 conto do livro Vaca e outras moças de família, de Renata Corrêa:

 

Esquisita

Os copos de plástico com restos de refrigerante quente faziam um barulho irritante nas nossas mãos suadas, denunciavam a nossa ansiedade diante do DJ, que como um torturador, colocou uma música lenta no fim da festa quando todos nós pensávamos que tínhamos escapado. Os pais já meio bêbados não percebiam a gravidade do momento. Escolher um par agora era como uma declaração pública de intenções, e seria impossível fingir que nada aconteceu na segunda feira. O primeiro tempo de aula seria dedicado aos bilhetes e impressões sobre a festa.

Lentamente os casais foram se formando. Primeiro o Vito com a Julinha. Mas o Vito já fazia faculdade e não morava mais na Tijuca, e a Julinha era prima dele e era feia então tudo bem era um acordo tácito e cordial entre eles, uma espécie de caridade adolescente. Mas depois o Danilo e a Verônica se levantaram, eles que juravam que eram só melhores amigos, aham, sei, e quase ao mesmo tempo o Gustavo e a Fernanda, o Luiz e a Deia e a pista de dança improvisada do salão de festas do prédio ficou pela primeira vez mais cheia que o local reservado para mesas e cadeiras no meu aniversário.

Apaguei meu cigarro e saí de trás da muretinha da piscina. Dei o último gole no guaraná pra disfarçar o cheiro da fumaça, e fui andando desajeitada com aquele vestido azul apertando meu quadril e meus peitos e fui procurando o lugar ideal, aquele lugar onde eu estaria convenientemente recolhida para não ser notada, mas ao mesmo tempo visível o suficiente para não perceberem a minha ausência e foi então que eu vi a Mari sentada perto da varandinha fazendo uma escultura nojenta de palitos de dente, guardanapos e restos de coxinhas e risoles. Era o lugar perfeito.

Não sabia exatamente por que a Mari figurava na sua lista de convidados, mas ela era como uma sombra sorridente e cordata passeando pela escola, onipresente em todos os eventos, com seus cabelos castanhos, altura média, peso médio, notas médias e personalidade média. Não era amiga íntima de ninguém, não participava de grupos e ninguém sabia onde ela morava, só que o pai dela era advogado e a mãe fazia visitas domiciliares para vender muamba gringa: hidratantes de baunilha, camisetas GAP, perfumes Dior, pedacinhos de ilusão pagos em dólar. Essas coisas. Sentei do lado dela. E aí?, eu disse. Ela disse parabéns, maneira tua festa. Eu respondi valeu. E ficamos olhando a pista.

Todas as minhas amigas usavam vestidos inconvenientemente justos, curtos ou decotados ou tudo isso  e a maioria dos rapazes não fazia ideia de como se vestir ou se comportar, afundando a cara no pescoço de suas parceiras, os cabelos escovados delas grudando no rosto deles, o calor de dezembro deixando a atmosfera úmida e pesada “Listen to your heart when he’s calling for you” e os corpos se apertavam indiferentes, como se a música ordenasse todo aquele movimento e os participantes da dança não se mexessem de forma proposital.

- Meio ridículo, não?

- O que?

- Tudo isso, a dança, as pessoas fingindo.

- Não sei, nunca ninguém me tirou para dançar.

- Então por que você não escolheu alguém para dançar com você?

Ela ficou em silêncio. Ninguém que eu queira dançar dançaria comigo, ela disse. Sofremos do mesmo mal, todas as garotas, queremos o inatingível, o cara do terceiro ano, o professor de geografia, o guitarrista de rock inglês, não é grande novidade, por isso não danço com ninguém também. Ela disse que eu deveria dançar, era o meu aniversário, devemos dançar no nosso aniversário, e nenhum garoto teria cara de pau de recusar um pedido da dona da festa. Mas eu não queria mesmo dançar, eu não queria comemorar, eu não queria vestido, nós todos estávamos aprendendo como se comportar em um evento público e eu pra ser sincera estava achando tudo um saco.

A Mari me achou meio ingrata, mas tratou de dizer isso de forma delicada e cordial como sempre. E se na pista todos dançavam nós duas travamos um duelo quase mudo onde não sabíamos exatamente o que estava em jogo, com frases cortadas, palavras deslocadas e não ditos que iam pouco a pouco se constituindo peças de um quebra cabeças a respeito dela, e depois de algum tempo, sem que eu percebesse, sobre mim também.

Eu não era ingrata, eu só não sabia exatamente das coisas que eu amava, só entendia das coisas que eu não gostava, era mais fácil assim, por eliminação. Que coisas eram essas? Eu também não sabia dizer ao certo. Que às vezes eu queria muito mesmo que me notassem, mas que tinha vergonha se me notassem ao mesmo tempo. Às vezes eu sentia que eu não estava destinada a nada extraordinário e que só seria digna de lembrança se me acontecesse uma tragédia. Se eu ficasse órfã ou fosse atropelada. Câncer talvez. Mas que nada disso me aconteceria, afinal eu tinha certeza que eu não estava mesmo preparada para as grandes coisas e como prova da minha teoria eu estava fazendo quinze anos e nem tinha me apaixonado de verdade por ninguém e o pior é que ninguém tinha se apaixonado por mim também.

Foi aí que a Mari levantou da mesa se inclinou sobre mim e encostou de leve seus lábios nos meus. Eu fiquei com os olhos arregalados, mas quando vi que ela estava de olhos fechados fechei os meus também e ela foi se afastando “And there are voices that want to be heard So much to mention but you can't find the words” quando eu abri de novo ela já estava sentada na cadeira ao meu lado.

- Tem gosto de fumaça na tua boca. Eu não sabia que você fumava.

- Não conta para ninguém.

- Tudo bem.

A música foi acabando e os casais foram se desprendendo como que acordando do sonho e da ressaca e o DJ logo colocou uma música animada para encerrar a noite. O salão tem que fechar às vinte e duas horas, regras do condomínio, minha mãe falou quando resolveu fazer a festa. Todo mundo começou a ir embora, algazarra na rua que dava pra ouvir de lá de cima no prédio. Eu tirei os sapatos de salto e ajudei o zelador a recolher as mesas de metal, os restos dos enfeites pisados, as bexigas estouradas e a Mari ficou por ali, disfarçando, chutando chapinhas e se diluindo entre os últimos convidados até que meu pai disse que os pais dela estavam lá embaixo estacionados em fila dupla esperando pra levar ela pra casa e ela foi embora dizendo muitas vezes como foi bonita a festa e como tinha gostado de estar lá, os ombros curvados a cara afogueada quase correndo até o elevador.

Então era assim a vida depois de um beijo. Cada molécula (ou seria átomo? Devia ter prestado mais atenção nas aulas) do meu corpo fervilhava e comunicava um segredo. Meus movimentos eram mecânicos e controlados, minha cabeça parecia leve, vazia e ao mesmo tempo cheia de gás hélio e meu coração batia como se eu tivesse sido assaltada. Eu tinha sido assaltada.

Que esquisita sua amiga, filha, falou meu pai com uma ponta de orgulho enquanto jogava a última garrafa de refrigerante na lixeira dos recicláveis. Papai sentia que tinha acertado na minha criação pois me achava generosa. Ele teve a certeza quando, no primário, eu me tornei amiga do Amin, um moleque sem nenhum dedo na mão esquerda e para ele isso era a marca indelével do meu bom caráter, mas a verdade é que eu tinha muito medo da pessoa que eu seria se não me permitisse gostar dele. Meu pai percebia alguma coisa na Mari, menos visível que uma mão sem dedos e se alegrava com a minha bondade.

No meu quarto acendi o último cigarro oculto da noite e fiquei pensando na cara comum da Mari, nos seus ombros comuns e na sua figura cinza e fria que agora cintilava na minha boca, o gosto da fumaça saindo da minha língua e pela primeira vez me permiti desenhar no teto do quarto um futuro sem solidão.


 

 

Livro: Vaca e outras moças de família

Autor: Renata Corrêa

Gênero: Contos

Número de Páginas: 120

Formato: 16x23

Preço: R$ 37,00 + frete