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Ricardo Primo Portugal

RICARDO PRIMO PORTUGAL

 

Ricardo Primo Portugal, 53 anos, nasceu em Porto Alegre/RS e formou-se em Letras pela UFRGS. Escritor e diplomata, radicado em Brasília, viveu na China (Pequim, Xangai e Cantão), na Coreia do Norte (Pyongyang) e no Equador (Quito). Publicou: Antologia da Poesia Chinesa – Dinastia Tang (Unesp, 2013, com Tan Xiao, Prêmio Jabuti 2014, categoria tradução, 2o lugar); Dois outonos - haicais (Edições Castelinho, coleção Estante Instante, 2012); Zero a sem – haicais (7Letras, 2011); Poesia completa de Yu Xuanji (Unesp, 2011, com Tan Xiao, finalista, 54o Prêmio Jabuti, categoria tradução); DePassagens (Ameop, 2004); As aventuras do Barão do Rio Branco – obra de apresentação da carreira diplomática para crianças (Divulg-MRE/FUNAG, 2002); A Cidade Iluminada – poesia para crianças (Paulinas, 1998); Arte do risco (SMCPA, 1992); Antena Tensa (Coolírica, 1988); Antologia poética de Mário Quintana (EDIPUC/RS – Consulado Brasil, Xangai, 2007), primeiro livro de poeta brasileiro traduzido ao chinês: coorganização, supervisão da tradução. Também tem participações em antologias e em sítios de internet dedicados a poesia e literatura (Musa Rara, Escamandro, Cronópios, Modo de Usar, Tuda, Germina, Zunái, Sibila, entre outros).

 

Contatos:


Conheça 05 poemas do livro A face de muitos rostos, de Ricardo Primo Portugal:

 

Envoi



“Vai, livro natimundo,
e diz a ela...”


– Ezra Pound (trad. A. Campos).


Vai, livro natimundo,
dize a ela:

Eu nada sei das coisas deste mundo.
As leis que regem Reis e Raimundos
mantêm-se estranhas, tristes, elusivas
a mim, meandros tortos, viperinos.

Perante as mesmas valho um Severino,
errante erva a ventos e nordestes.
Sigo barrado às portas do castelo,
fico a admirar-lhe a torre inacessível.

E lá, pobre livrim desmilinguido,      
habita a bela entre marfins e ouros,
cercada de canalhas distinguidos,
vendendo-lhe uns versinhos bicharocos,

que dizem ser poesia, esses papudos,
papagaiando amores e autoajudas
com poses de menino de família,
sensível palhacinho inofensivo.

Porém resisto – e valha-vos, princesa,
o ardor desta insolente algaravia.
Poesia é uma caixinha de surpresas
à classe média da churrascaria.

E se à vidinha burra esta grafia
em duros versos ganhe altissonância,
somente amor empurra-me pujante,
jogando-me ao Estige até Itabira.

 

***

 

Poeta: uma definição


“...erros estocásticos são comuns
em semelhante ofício
talvez eu tenha ido longe
longe demais nesta fissura
de linguagem”

– Ronald Augusto

 

Poeta é o intruso
que se imiscui feito um distúrbio
na fala do mundo
Talvez mais um chinês portuga
ou imigrante que surge
parecendo doutro planeta vem
aparecido, este ET taciturno

Poeta é o obtuso
sujeito de olhos flamejantes
que viceja à beira da tumba
Tocou-lhe destes rompantes
algo como tocar tuba
para enfurecidas turbas
que detestam seu novo turbante

(e até em Itaquaquecetuba
há desse bicho forâneo
para azar da multidão
daquela encantadora
progressista operosa
empreendedora e próspera
urbe)

***

 

Grafito para Lacan

 

também a poesia
deveria ser
recusada aos canalhas

e por fim sabe-se   
ela mesma se  
recusa às tralhas
da society e trava-se
a sócios pretensos
de birinaites

na verdade
trata-os aos talhos
rejeita-se aos pretendentes
mais preclaros
vende-se caro
mas não entrega

e tanto dá-se às falhas
da língua e escoa-se às calhas
dos alterosos edifícios
da  gente fina  
tal chuva de sentidos
vulgos excessivos
esta vulgívaga

desenvolta às margens
de todo o discurso vazio
repleto de bens-viveres
e  víveres linguísticos bem
dispostos ao mercado

e locupleto de vivas vivas
morras modorras esta
linguiça de significantes
muito úteis e desde
sempre isto apenas cisco de
vivas tu e digo eu

afinal a poesia
não se porfia
nas rodas avaras
dos fariseus
e nem às falas
sobejamente embasadas
bocejadamente em nadas
de édens embalsamados
entre prosaísmos

não, ela brota ferina
ri-se zomba e dissente
sobre falatórios cerebrinos
ou chororôs sentidos
recortados aos cêntimos
de tecido sígnico

(“tudo isso é
encolhido a centímetros
escolhidos à matéria plástica
depróteses de significados
que sobram ou
sossobram”, diria ela
se algo dissesse)

 

***

 

Tango do despejo

 

Desejo, ponha-se daqui para fora,
rua, raus, desta morada despeje-se
a ignotos vaus, esquálido indigente
ignominioso, que não paga as contas.

Desejo, perca-se pelas sargetas,
poema à chuva. Vossa Senhoria
não vale o sal que faz arder as setas
do deus do amor, papel de poesia

apenas, dor no peito que se ausculta.  
Despojo-lhe, desejo, feito um monge
que à penitência se flagela, insone,
quando se esfola ao pó que o ridicula.   

Desejo, deste corpo desapegue-se,
maldito encosto, volte às fundas grotas
onde o geraram, germe de desgostos,
tarado, gigolô da ignara plebe.     

Parta, infeliz, aos bares arquisórdidos,
rasteje à baixa arquitetura, à chusma,     
que ao pardieiro eleva-se, esquisoide,
da horrenda massa ao céu em meio a apupos.

Assim despacho ao mundo este compadre,
que se esfrangalhe aos mais pedestres grupos,
farrapo humano abandonado a apuros:
cuido a cidade em paz, la puta madre!                                   

***

 

Ao céu e à terra

 

Ao céu e à terra ostento minha glória    
forjada em descampados irrisórios,              
histórias de batalhas e os sintomas
que as suplantaram, véu de mansas sombras.        

Persegue-me este ocaso que avermelha
o fim da tíbia tarde em que me alheio,                 
alegre ou triste, ao sulino desígnio
que alenta minhas noites, dias, vidas –  

que muitas houve ao tempo que se elude –,
pois quis largar-me ao mar mais do que tudo,
náufrago intento, pródigo à desdita.       

Poeta fui, ao léu, nuvem de calças,
léxico em punho, sempre aos céus assalto
e até o fim dissipo-me em sentido.                     

 


 

Livro: A face de muitos rostos

Autor: Ricardo Primo Portugal

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 150

Formato: 18x25

Preço: R$ 38,00 + frete