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Eltânia André

ELTÂNIA ANDRÉ

 

Eltânia André Nasceu em Cataguases-MG. Autora dos livros de contos Manhãs adiadas (Dobra Editorial, SP, 2012) e dos romances Para fugir dos vivos (Ed. Patuá, SP, 2015) e Diolindas (Ed. Penalux, SP, 2016, escrito em parceria com Ronaldo Cagiano).

 

Contatos:


Conheça um conto do livro Duelos, de Eltânia André:

 

GARIBALDI

 

Os funcionários da prefeitura trabalhavam na limpeza das ruas, retirando as beldroegas que proliferavam nas frestas dos paralelepípedos. Três vezes ao ano o serviço era realizado nas principais vias da cidade; ele, cansado desse ritual de sol, pás e ancinhos, desconcentra-se com as pequenas ferramentas em suas mãos. Entre arrepios e dor nas costas, sentiu o odor de tristeza, como acontecia quando se aproximava da última gaveta do guarda-roupa, onde sua mãe albergava as vestes surradas e ensanguentadas do filho morto num acidente. Ela insistia em preservar o hálito da morte. Todas as vezes em que transitava pelo quarto, era invadido pelo sentimento inexplicável, acrescido de náuseas e de uma pressão na cabeça.  Ao escancarar uma das quatro portas, o cheiro daquelas roupas alertava-o do eterno luto: conviver com a falta. Ao mesmo tempo, o sentimento de nostalgia impelia-o a vasculhar periodicamente os trapos, prazer em meio à dor. Contradição humana. A sensação de que a mobília captava o espectro dissoluto das despedidas, como um rosto melancólico; as gavetas, transformadas em covas boquiabertas, abrigavam as roupas com as manchas de todas as tragédias, as nódoas humanas infeccionando os objetos que, indefesos, não resistem à atmosfera monolítica, ao escuro de suas almas.

O trabalho demandaria um sem-fim de tempo, oito horas diárias, com uma hora e meia de almoço e mais trinta minutos para o lanche rápido à tarde – que geralmente eram oferecidos pelos moradores. Tinham água fresca à disposição, bastava bater palmas à frente das residências. Dona Geraldina era a primeira a atender, toda espevitada, vezenquando com uma broa de milho e uma garrafa de café; come mais, moço. No rádio à pilha do Bastião brotavam vozes e melodias que ritmavam as ferramentas e os sonhos dos peões. Olhando as casas ao redor, Garibaldi intuía que toda família guarda seus segredos. Sua mente numa compulsão de pensamentos, que iam e vinham atravessando vidas, desbloqueando os muros da resistência, navegando sutilmente, enquanto, presa às suas mãos, a ferramenta auxiliava a limpeza da via pública. Imagens norteavam o caminho da divagação como no breu do seu quartinho à hora do quase adormecer, mas, à luz do dia, Garibaldi era refém de outros mundos, não tinha controle dos seus devaneios – dos seus pesadelos diurnos.

A dentadura de sua mãe amanheceu durante décadas no copo com água e bicarbonato em cima da pia do banheiro, por vezes permanecia o dia inteiro assombrando, e ela, com seu sorriso murcho a revelar aos seus os escapes conhecidos, ao seu modo, ditava caminhos para as pernas do filho, o que era nocivo e o que era necessário, convicta de que sua penca de rugas e seus cabelos prata tornavam-na mais sábia. Sentia saudades da mãe. Outro tempo aquele. Olhou para as suas mãos tão secas e cheias de calos e pensou que tudo ficou para acontecer. E Garibaldi não entendendo o porquê das lembranças que disseminavam ao arrancar as gramíneas (que se imiscuíam entre os paralelepípedos), coçava a cabeça para espantar o suor e a sua vontade de compreender as coisas.


 





 

APRESENTAÇÃO: Para Fugir dos Vivos



Alguns romances nos fazem mais conscientes de nossa capacidade de mergulhar nas histórias. Existem textos que nos prendem e nos despertam um interesse maior, a delícia se faz mais presente, mesmo prazer de quando ainda éramos jovens. Aquele instalado em um passado distante e que acabou transformando-se em hábito, o da leitura. Ler Para Fugir dos Vivos, de Eltânia André, foi para mim recuperar o universo muitas vezes perdido desta sensação, a de mergulhar em um mundo novo, fruir, fruir, querer que o tempo se arraste, as páginas não cheguem ao fim.

Tanto no Livro Um como no Livro do Miguel entramos na intimidade dos narradores, onde os dois irmãos filhos de Ismália, a Maria Comprida, com suas unhas de arranhar pesadelos, e do coveiro Fonseca e seu chapéu assustador, mergulham no passado às margens do rio Pomba, lugar onde nasceram, e desfilam tristezas que habitam o noturno de suas almas. Ali, de certa forma, morrem um pouco todos os dias, vítimas das rudezas de uma educação em que o silêncio sempre se faz incapaz de trazer ternuras. A falta de delicadeza presente é cortante como a navalha Monserrat Pou, que o filho mais velho ganharia do barbeiro.

E lá crescem vítimas de injustiças, castigos, mãos pesadas. E, quando recordam o sucedido, sentem ainda a mágoa presente, mesmo que distantes, afastados, vivendo fora dali, adultos.

Ao entrarmos em contato com as perspectivas de cada um deles, podemos observar a diversidade psicológica do humano. Os dois recuperando suas dores deslocados e tristes, na rápida visita de despedida.

Nas palavras bem escritas da autora destacam-se algumas preciosidades. Como no momento em que o menino recorda uma surra: arrepios percorreram o meu corpo, os pelos eriçados pela lembrança trazem à tona todo o afeto daquele instante com a eficácia devastadora de um câncer. Metástase na alma.

Nem sempre a nossa arma é o que a memória guarda.

 

 


 

 

Livro: Duelos

Autor: Eltânia André

Gênero: Contos

Número de Páginas: 120

Formato: 14x21

Preço: R$ 38,00 + frete

 




 


 

 

Livro: Para fugir dos vivos

Autor: Eltânia André

Gênero: Romance

Número de Páginas: 192

Formato: 16x23

Preço: R$ 38,00 + frete