learnex

Prisca Agustoni

PRISCA AGUSTONI

 

Autora do livro Hora Zero (Patuá, 2016), Prisca Agustoni nasceu em 1975. É poeta, narradora, tradutora e ensaísta. Leciona literatura comparada na Universidade Federal de Juiz de Fora, cidade onde reside.  Escreve também em italiano e francês. Em 2014 publicou o livro de contos Cosa resta del bianco, Capelli Editore, Suíça e em 2015 a coletânea de poemas Un ciel provisoire, Samizdat, Genebra. Desde 2009 integra o grupo de autoras migrantes “Compagnia delle poete”, Itália (www.compagniadellepoete.com). Sua obra em português compreende, dentre outros, os livros: Irmãs de feno (2002), A neve ilícita (2006, contos),  A recusa (2009), A morsa (2010). Alguns poemas do Hora Zero foram publicados previamente (em português ou em italiano) em revistas brasileiras e italianas.

 

Contatos:

 

 

Contatos:


Conheça 07 poemas do livro Hora zero, de Prisca Agustoni:

 

A PRIMEIRA VISITA


A casa.

Ao abrir a porta, rebobino o passado.
Aquilo que me ocorreu, mas que não vivi.
Ainda.

Azul é a cor dessa casa.

Os quartos brancos, grandes,
com muito vento dentro.
A sala, imensa, com muito céu dentro.

O perfume de laranjeira em flor.

Essa casa é um relicário de vidro e verde.
Tem ares de casa dos milagres.
Ou, quem sabe, apenas dos dias
que virão, dos outros
que seremos.

A poesia, aos poucos, brotará,
romã que dobra o galho.

A vida, aos poucos.

A primeira visita ainda guarda
imagens do que seremos

e a paixão do humano
que arde sem dor.

Essa casa um dia será meu lar
nem que para isso tenha que empenhar
todas as palavras

e algo mais.


***

 


após dar três voltas
na chave, hermética, a porta
de entrada fica ali, branca
e pura pomba de asas cortadas
a insinuar o voo – un vol
que havia, a vida que havia

antes que o chão não fosse
tição ardente sob os pés

ou tapete de ladrilhos
numa igreja sem fiéis

 

***

 

a paz, esse silêncio sem vozes
acena para fora do mundo,
uma ítaca que emerge, ao longe

: tem sentido, o inferno, quando
se volta com a bagagem
da sombra, após longa cegueira.

Paga-se caro, nesses tempos,
por um precário ponto
de ancoragem.

***

 

minha casa
uma placenta que se rompe
cedo, cedo demais

dentro, outra
fortaleza de sangue
e esperma cresce,
cresce, e já
será colmeia ou casca
sugando o medo como mel

 

***

 

enquanto apalpam
rendas e sutiãs
na terceira gaveta
sinto-as descer
ávidas, as mãos
ao longo do corpo –
até que apaga-se
a vontade
e jogam-me no chão

boneca, cuja mola quebrou

***

 


faltam três dentes de leite
no fundo da gaveta

estavam ali
guardados no algodão
junto ao terço de prata

e à infância da menina.

Caíram o ano passado
após longa espera
em poucas semanas,

-faltou-nos a coragem
de jogar no lixo
essa relíquia corporal-

como bulbos na terra
enterramos os dentes
na memória.

A caixinha de lata
ficou sem tampa e sem terço:

procuramos e procuramos

mas sumiram mesmo
três dentes de leite
e o terço de prata,

um dente foi achado
debaixo da cama

os bulbos lá quietos
a espalhar lembranças,

já a infância da menina
ninguém sabe

 

***

 

a noite toda sentada na cozinha
as costas na parede
a faca na mão

penso nos homens no front de guerra
nas mulheres com sujos aventais
suas faces vermelhas

e a poesia, inesperada,
amola a lâmina entre minhas mãos

 


 

 

Livro: Hora zero

Autor: Prisca Agustoni

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 120

Formato: 14x21

Preço: R$ 38,00 + frete