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Carolina Zuppo Abed

CAROLINA ZUPPO ABED

 

Carolina Zuppo Abed é paulistana de nascimento e santista de coração. Vive em trânsito pela Serra do Mar, não sabe morar em um lugar só. Escritora, professora e psicopedagoga, é graduada em Letras pela Universidade de São Paulo e tem pós em Formação de Escritores pelo Instituto Vera Cruz. Ministra oficinas de escrita literária pela Secretaria Municipal de Cultura de Santos e dá aulas de redação e literatura no ensino básico. Desenvolve pesquisa sobre processo criativo e formação de escritores. Tecle 2 para esquecer, seu livro de estreia, foi contemplado pelo Programa de Ação Cultural da Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo (ProAc) e desenvolvido com auxílio de bolsa de criação literária.

 

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Conheça o prefácio e apresentação de Tecle 2 para esquecer, de Carolina Zuppo Abed:


Prefácio
por André Argolo


Atenção: está equipado? Ao entrar neste livro você descerá muitos e muitos lances de escada como num mergulho seco, andares adentro de uma construção que é mais uma ruína. Há quem chame isso de alma, mas alma é uma nuvem. Talvez o nome esteja mais para passado. Também não, porque não passa. Entre e depois nomeie por si o que é. Mas não conte a ninguém. Nomear é revelador demais ou é simplista demais.

Carolina Zuppo Abed cavou fundo para estacar os vinte contos escolhidos para este livro de estreia. Resumindo, são variadas experiências de vida, a maioria a partir de traumas de infância. Variadas quer dizer que os relatos, apesar de serem em primeira pessoa, não partem de uma única voz. É uma gritaria abafada. E os fatos são colhidos como ervas daninhas em um jardim infestado de flores de plástico. Mude isso ou aquilo, mas as sensações de alguma forma moram em todos nós. Pergunto de novo: está equipado? O ar é rarefeito lá embaixo, suspeito, porque a gente sufoca e se alivia em bolhas. Mesmo os contos de cenas mais leves ou linguagem inocente do narrador contêm camadas de intensidade.

Os fatos na vida da gente... são solidamente o que foram ou quebradiçamente como lembramos deles? A autora eleva o tom de algumas lembranças, carrega nas sombras, porque no certo exagero da metáfora chega-se mais perto da realidade. A mãe que esfrega o rosto da filha no xixi vazado fora do banheiro existe? A filha que anseia dar o troco na mãe já destemperada na incontinência, existe? Pode existir ou pode o xixi ser outra coisa menos óbvia, menos fétida, menos evidente e ainda assim mais asquerosa? Um silêncio muito interno acompanha as reflexões causadas a cada texto.

Vem de Aristóteles a percepção de que os humanos incapazes de socializarem-se ou são selvagens ou deuses. No iluminista Rousseau, um entendimento de que, em sociedade, as pessoas passam a experimentar a necessidade de atrair para si o olhar dos outros. Olhar e ser visto como combustível da existência. E há muitos outros conceitos, de outros autores, que o pensador contemporâneo Tzvetan Todorov acumula no ensaio A vida em comum, sustentando que essa interdependência é condição humana. Apesar disso, de absolutamente necessários uns aos outros, nos acotovelamos. Nos ferimos até sem querer, mas sobretudo por falta de cuidado: olhando, sim, sem realmente notar. E o que provocamos uns nos outros, por que é ao mesmo tempo tão destrutivo quanto inevitável? Nos contos de Carolina Zuppo Abed as relações entre mães, pais, filhos e filhas, principalmente, trazem esses choques em que os corpos menores, espíritos em formação, caem mais fácil. Este livro é sobre as feridas que não fecham.

Em entrevista, a autora declarou que doeu escrever. A leitura também dói.  Aos pais que vão encarar a empreitada, recomenda-se suprimento extra de oxigênio. E talvez alguma penicilina. Está pelas histórias a corda bamba sobre a qual se caminha na criação dos filhos: quanto atrapalhamos, quando interferimos com o que chamamos educação?  "Uma linha tênue separa as frustrações da criança negligenciada daquelas da criança mimada, e é difícil saber qual das duas, na idade adulta, desempenhará o pior papel", escreve Todorov, que termina seu ensaio assim: "A vida em comum apenas garante, e no melhor dos casos, uma frágil felicidade".

Essa felicidade talvez você encontre nas entrelinhas do que é dolorido nos relatos dos personagens. Na esperança afunilada da menina no orfanato; no médico que buscava peças de xadrez e encontra um pai que não conhecia; entre uma pá e outra de terra sobre o amor da menina por gatos; na angústia acabrunhada atrás de uma porta, último escudo de uma perseguição por ser apenas o que se é e gostar do que se gosta; no amor destrambelhado de um pai que não sabe falar de morte com a filha; na promessa a uma criança que sai dos trilhos; na vivência tão real de um acidente de automóvel; nas meias palavras de um abuso indesculpável. Talvez.

"Esses anos agora parecem ter durado a vida inteira, sem nunca terem existido", escreve Carolina em um dos contos. A memória dos personagens sobre fatos que se inscreveram decisivos em cada um deles é algumas vezes duvidosa. Há pistas de que traumas são erguidos sobre areia. O rapaz endividado que lembra do ferrorama que não teve: o pai ficou com seu dinheiro poupado ou a mãe é que o desviou? Na maioria dos relatos há implícito um desejo pulsante de que nada seja realmente verdade.

A descida angustiante na ruína construída é uma experiência logo de cara, no primeiro conto. Então, não se recomenda a liberdade de começar por qualquer texto. Siga o diagramado, vá? Tem um sentido a obra ser organizada do que jeito que foi. Inclusive pelas ilustrações de Bruno Malfatti, que acrescenta seus traços de reflexão e amplificação de sentidos. Os desenhos são de se ler, tatuagens significativas num livro de cicatrizes. Perguntei se está equipado. Mas, de verdade, não sei o que isso quer dizer. Não parece haver equipamento possível para esse tipo de mergulho. Somente fôlego.  


 


 

Livro: Tecle 2 para esquecer

Autor:
Carolina Zuppo Abed

Gênero:
Contos

Número de Páginas:
138

Formato:
14x21

Preço:
R$ 38,00 + frete