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Paula Bajer Fernandes

PAULA BAJER FERNANDES

 

 

Paula Bajer nasceu em Santos em 1962 e vive em São Paulo desde 1981. Na ficção, publicou os  romances Viagem sentimental ao Japão (Apicuri, 2013) e Nove tiros em Chef Lidu (Circuito, 2014, e-book, e-galáxia, 2015), assim como o livro de contos  Asfalto (e-book, e-galaxia, 2014). Integra o Coletivo Literário Martelinho de Ouro e tem contos nas antologias do grupo: Achados e perdidos (RDG, e-galáxia), Serendpt (Livrus), Sub (Editora Patuá) e nos zines 50 anos daquele 64 e Fancine. Tem os blogs lolitaimaginario.com. e cheflidu.com.

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Conheça 1 trecho do livro Feliz, aniversário, Sílvia, romance de Paula Bajer:





1

Sílvia, eu deveria ter limpado esse porão, tem  pó em tudo. Ele colocou um colchonete muito fino e curto. Sílvia, ele  sabe que deixei  meu dinheiro pra você, só não sabe quanto guardei e onde. Ele quer tudo pra ele, quer fugir com a Dra. Jéssica.

Vou morrer aqui, Sílvia. Estou com febre e meu braço dói. Dona Soraia me trouxe sopa e vou pedir pra ela te entregar esta carta. Ela está com muito medo porque ele ameaçou matar a filha, mostrou uma arma. Espero que ela tenha coragem de te levar essa carta. Ele vai me deixar aqui até eu contar onde está o dinheiro.  E vai matar a Dona Soraia e a filha e quem tentar fazer alguma coisa. Até você, Sílvia.

Gosto muito de você, minha amiga.

Feliz aniversário, Sílvia.

 

2

Cena do crime

No dia seguinte você acorda e vê, na cozinha, os restos da madrugada: prato de bolo sem o bolo, migalhas de chocolate na toalha na mesa, lata de coca-cola e pote de sorvete na pia, sem o sorvete. Ninguém para limpar o corpo de delito. Você fotografa a mesa suja. Faz um selfie do rosto inchado para documentar. Tem vontade de vomitar, vai ao banheiro e coloca o dedo na garganta, mas não sai nada. Você arruma tudo devagar e jura nunca, nunca mais, sucumbir à compulsão.
Aí você se pesa, para se castigar: 72 quilos em seu 1,68m. Precisa perder 14 kg.

 

3

Quando a enfermeira chegou para medir  pressão, febre, batimentos cardíacos e dar remédios para Sabina, Sílvia viu que estava tudo bem e se despediu.

-Você tem certeza, posso ir?

-Tenho, daqui a pouco  Carlos Alberto chega.

-Ele vem?

-Vem. Vê se faz alguma coisa, não vai ficar em casa escrevendo aquele seu diário dietético.

-Vou tentar.

- Obrigada pela visita. Não esqueci do aniversário, amanhã.

-Você nunca esquece.

-Você vem amanhã?

-Pode ser, te ligo.

No corredor, a moça com o carrinho levava o jantar de quarto em quarto. Não queria deixar Sabina sozinha, mas também se sentia mal em hospitais.

A moça entrou com a bandeja do jantar. Sabina pediu para ela colocar o carrinho perto da cama.  Sopa, peixe, espinafre refogado e arroz. O gesso no braço não atrapalhava os movimentos de levar o garfo do prato à boca. Concentrou-se na comida, esperando a hora da gelatina vermelha.   Terminado o jantar, pensou em como faria para afastar a mesa com rodinhas da cama. Apertou o botão da campainha. A auxiliar de enfermagem veio e encostou a mesa na parede. Ela poderia ter se levantado, mas teve medo de ficar tonta.  Carlos Alberto estava atrasado e ela começou a se preocupar. Olhou o celular e viu que ele estava online no WhatsApp. Fechou o aplicativo, não queria que ele soubesse que ela o vigiava. Ligou a TV. Notícias das últimas prisões. Sua mente de escritora imaginou a barba daqueles homens crescendo nas masmorras, o xixi que eles faziam em buracos no chão das celas. Não sabia se era exatamente assim porque nunca tinha entrado em uma cadeia. Talvez devesse visitar uma cadeia. Pediria a Sílvia para levá-la em uma das visitas a seus clientes presos. Ela ia pelo menos uma vez por mês à cadeia.

Bateram na porta. Uma moça muito linda vestida de médica, com avental branco, estava  na sua frente.

-Boa noite. Sou assistente do Dr. Jivago, Dra. Jéssica.  Ele examinou seu raio X e suspeita que um pino esteja fora do lugar. Precisamos fazer outro exame.

-Mas à noite?

-É melhor. Talvez seja necessário abrir o braço de novo e podemos fazer isso amanhã cedo.

-Por que o Dr. Jivago não veio conversar comigo?

-Eu sou da equipe da ortopedia, estava na sua cirurgia, você estava anestesiada e não viu.

Já tinha sido operada duas vezes antes, a cirurgia no braço era a terceira. Nunca se sabe o que acontece durante uma cirurgia, quais os médicos que estão mesmo na sala, segurando o bisturi. O paciente não lembra o que falou sob efeito da anestesia. Os médicos deviam ouvir barbaridades. Eles também falavam muita bobagem. Em uma das cirurgias, os médicos cantaram uma música infantil. Depois o cirurgião chefe explicou que as brincadeiras ajudavam a dissipar a tensão. Não estranhou que a doutora Jéssica tivesse estado em sua cirurgia. Era bem possível. Só não achou certo sair do quarto para um raio X naquele momento, à noite.

-Quero que chamem meu marido.

-Estamos atrás dele há horas. Não atende o celular.

-Mas ele está online no WhatsApp.

-O enfermeiro já vem buscá-la.

Doutora Jéssica era a mulher mais linda. Olhos azuis, cabelos longos e bem penteados. Não tinha o cansaço dos médicos de plantão, sempre  esgotados. Era tão linda que dava medo. Parecia ter acabado de sair do cabeleireiro. Estava pintada, com sombras azuis nas pálpebras. Tinha um batom rosado muito bonito nos lábios.

Dois homens com uma cadeira de rodas entraram no apartamento. Disseram que a levariam para o raio X. Os dois a pegaram na cama e colocaram na cadeira de rodas com força. Puseram um cobertor sobre suas pernas e o mais alto disse:
-Se tu abrir a boca no corredor, morre.

E foi assim que Sabina saiu do hospital. Chegando ao andar térreo, eles a levaram para o banheiro masculino, onde vestiu uma calça jeans e uma camiseta com desenho dos Simpsons, tênis brancos, que por sinal eram os seus. Um casaco preto e longo escondeu o gesso. Saiu andando do banheiro, o homem apertando seu braço. Ela sentiu, nas costas, algo que concluiu ser a ponta de uma arma de fogo. Logo a empurraram para o banco de trás de um carro preto estacionado na porta do hospital. No banco da frente, do passageiro, estava uma pessoa que ela conhecia bem: Carlos Alberto.

 

4

(Diário)

Bananas amassadas

Queria ter nascido homem, mas, quando penso no serviço militar, mudo de ideia.

 

 

*****

 

Comecei a fazer a dieta das bananas. A gente acorda e come só bananas, quantas quiser. Depois come normal.

Um dia minha mãe contou que quando eu tinha um, dois, ou três anos, me dava cinco bananas amassadas de sobremesa. Eu me pergunto se eram todas juntas ou uma de cada vez.

Estou sentada no cadeirão comendo  bananas. Já vi uma foto assim. Continuo comendo bananas, agora sentada em uma cadeira.

 

*****

 

É provável que minha mãe pusesse açúcar na mamadeira. Se eu não ficasse bem gorda, pensava  que não estava cuidando bem de mim. Bananas sempre confortam.

Aos dez anos, depois de ter comido mais de quinze mil bananas, ela olhou para mim e disse que eu precisava fazer regime. Ela usava essa palavra, regime.

Ela era médica e trabalhava muito, não sei como teve tempo de olhar para mim naquela época. Um dia olhou e me viu gorda. Não queria mais um bebê com dobras nas pernas, mas uma mocinha graciosa e bem vestida. Aí me levou a um colega bem esquisito, chamado Dr. Kurzmann, que receitou a seguinte dieta, impressa em um caderninho formado com folhas grampeadas: manhã - meio pão francês, uma fruta, uma fatia de queijo branco, uma xícara de leite desnatado. Lanche - uma fruta. Almoço - um bife, três colheres de arroz, salada e verduras e às vezes um ovo. Lanche - uma fruta. Jantar - a mesma coisa do almoço.

Ele receitou remédios para tirar o apetite (hoje proibidos). Tenho medo de ouvir os nomes dos remédios. E eu tomava. Tomava, ia para a praia, sentava em uma cadeira, pegava uma fruta, quase sempre uma pera, e ficava olhando o mar e uma pera, o mar e a pera. E dava uma mordida na pera. Mastigava devagar. Eu mordia a pera devagar.

 

 


 

 

Livro: Feliz aniversário, Sílvia

Autor: Paula Bajer

Gênero: Romance

Número de Páginas: 100

Formato: 16x23

Preço: R$ 40,00 + frete (Livro em pré-venda, entrega após o lançamento. Amigos e leitores de todo o país que realizarem a compra antes do lançamento receberão o exemplar autografado após o evento. Imperdível!)