learnex

Naná DeLuca

NANÁ DELUCA

 

São três.

Naná formou-se em Letras na USP e seguiu a carreira acadêmica. É mestre em Literatura Francesa, com enfoque em estudos feministas, estudos de gênero e literatura LGBT. Apresentou uma dissertação sobre a escritora Violette Leduc.

Naná atua na Educação Popular dando aulas de Redação, Literatura e Interpretação de Texto (nunca Gramática, por acaso ou ideal) em cursinhos de São Paulo. Gosta desse limbo acadêmico e de ser parte desta etapa da formação. Gosta de ver no fim do ano guerrilhas explodindo os muros na forma das listas de aprovação.

Naná tem família toda de Santos, mas não nasceu lá, o que incomoda um pouco (é como ter raiz profunda no jardim do vizinho). Sente muita falta do mar no cenário de concreto. Só sabe ler, escrever e falar. De resto, investiga.

 

 

Contatos:


Conheça o texto de apresentação / orelha do livro O sexo dos tubarões, de Naná DeLuca:

 

Tubarões, Sereias e uma escrita-tempero

por Emerson Inácio*

 

As sereias da modernidade não cantam mais! Pelo menos não como aquelas que se notabilizaram na Odisséia por sua fúria e por sua capacidade de encanto. As ondinas, ultramodernas, agora escrevem, manifestando-se num gesto escritural que liquefaz, num mesmo Corpo, ficção, autoficção e poesia, através de movimento cadente, sedutor, de ondas que vão e vem entre um Gênero e outro. Tudo isso apr(e)endido de “afogadas melodias” que agora nos ensinam o “sussurrar das gotas”. Em O sexo dos Tubarões, aquele limite que sutilmente separa mar e areia, verso e frase. Convocando a esta T(S)ex(t)ualidade-Tubarão o mundo que reverbera em si, Naná de Luca apresenta-nos a sua história de leitora e de leituras, num atravessamento que se expande na ficcionalização da criança-adulta que narra e que vê no perigo o gesto sedutor das sereias mais contemporâneas, sempre meio gente – muito gente! – meio
peixe.

Seja sereia ou tubarão, prosa ou poesia, o que temos aqui é um grande exemplo de uma nova textualidade que emerge em língua portuguesa, onde o limite dos
G(g)êneros é o que menos importa. O que se revela e releva, é este sal, de lágrima ou de mar, que acerca essa escrita e que, enfim, também nos tempera.

 

 

*Emerson Inácio, professor da área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua
Portuguesa – FFLCH - USP

 

***


Conheça o primeiro capítulo do livro O sexo dos tubarões, de Naná DeLuca:

 

1.



Eu me lembro bem. Meu caso não é único. Por não ser único, lembro. Neste tártaro dourado adorado salgado hostil, farei minha parte e contarei um de nossos contos. De todos eles, conto o meu. A estória de como me tornei tubarão. Devo contá-la, pois meu conto também é outros.

 

Começa em uma estranha orgia que criança presenciei. Caiçara, eu persistia em desbravar os mares. Era fundamental o equilíbrio entre respeito e coragem. Medo e humildade. Nunca se dá as costas para o mar foi um dos primeiros ensinamentos que me foram passados. Há um ritual de apresentação: molhar nas águas gentis do raso os pulsos e a nuca. Esta é a maneira de dizer ao mar que se está conformado em ser engolido por ele e, para isso, com ele se igualar em temperatura. Aqui estou eu, aqui está o meu corpo quente a resfriar. Este rito leva o corpo a se curvar diante do oceano. Aqui estou eu, corpo curvado aos pés do mar. Na cerimônia do adeus há somente um protocolo: não dar as costas. O mar castiga, dizia minha mãe. Cumprindo com estas duas exigências, senti, nadaria em segurança qualquer aventura. Gostava, é claro, de ir lá onde os pés das crianças não encontram as areias. Lá onde os corpos das crianças se entregam às vontades
das correntes e das ondas.

 

Nada a temer, no entanto. Há um ponto de referência nas areias que deve ser observado. Respeitosamente, é preciso travar batalhas singelas para permanecer diante deste ponto. O guarda sol de meus pais. Vendo ainda este guarda sol, não havia medo que me parasse. O mar não teria motivos para me castigar. Ao contrário, acreditava, poderia muito bem recompensar a criança por sua devoção e persistente respeito à todas as suas exigências. Nadava sempre em direção ao horizonte sem fim. Para além das formações das ondas, até que o guarda sol se tornasse um minúsculo farol distante. Até que visse muito mais azul do que branco, ou marrom ou qualquer que fosse a cor escolhida pela areia para usar naquele dia. Água no umbigo sinal de perigo era outra lição recorrente: esta eu ignorava, pois acreditava se tratar muito mais de uma recomendação do que um mandamento real. Eu tinha fé de que o mar não me faria mal. E como todo bom fiel, eu selecionava com algum cuidado os postulados a serem seguidos. As parábolas sobre crianças afogadas em nada me assustavam. O mar não me faria mal. Eu o
cumprimentava como deveria e nossas despedidas eram sempre zelosas. Nos entendíamos no corpo a corpo da amizade. Ele compreendia minha fraqueza, eu
respeitava sua força.

 

Vi, então, um enorme corpo que boiava. Nunca havia visto a morte. Bati minhas pernas em sua direção. Senti vontade de tocar defunto. Não cabia em meus olhos quase afogados o tamanho daquele corpo morto. Colossal. Uma baleia que flutuava no curso das ondas. Havia um cheiro molhado de apodrecendo. Envelhecia cada vez mais nas narinas. Um cheiro que ia morrendo também e precisava feder cada vez mais antes que deixasse de existir. A baleia jazia finada, seu cheiro era vivo. Mas parecia uma morte serena, dessas que se deve morrer. Por isso não me assustou. Uma morte qualquer lá onde nunca vamos, onde o horizonte caminha azul para todos os lados. Senti encanto por ser a primeira pessoa a velar o corpo da baleia. Uma vez eu tive um sonho onde no dorso de baleias encontrava ruínas egípcias em meio ao oceano. Sobre estas ruínas, dançavam bailarinas de tutus rosas que graciosas piruetavam no ar. Faziam no ar suas danças melancólicas e com as pontas das sapatilhas tocavam as águas. Estas não as engoliam, mas lançavam de volta para as ruínas. Observava junto das baleias esse lento balé. E as baleias faziam agudas saudações que musicavam piruetas e pliês. Foi só isto o sonho. Ali, no entanto, não havia bailarinas e minha baleia fedia o fedor de toda a rua do Peixe.

 

E, então, eu não estava mais só. Senti tocar meus pés uma pele lixa desconhecida. Corpos vivos passavam por mim e a força de seus movimentos me arrastava frágil pelas águas. Barbatanas fatiavam o mar ao redor. Tubarões. Dezenas, centenas. Eram mais do que eu sabia contar. Não há hipérbole que abarque meu pânico e minha surpresa. Ao mesmo tempo, sentia, aquilo deveria ser um presente do mar para mim. Contudo, era isso, iria morrer. Era certo. Meu corpo não era corpo de se enfrentar tubarão. Não ousava me mexer, exceto pelas pontas dos dedos que frenéticas lutavam para manter meu nariz acima da superfície. O focinho é frágil lembrava. Sim, lembrava, era outra lição importante sobre os mares. Rodeavam o corpo da baleia. Rodeavam uns aos outros. Rodeavam meu corpo. Estavam em toda a parte e eu via suas sombras nadarem na luz das águas verdes e azuis. Seu nado fazia uma música de esguichos e correntes e dança. Lembrei das bailarinas de meu sonho. Os tubarões também dançavam. E eram de uma beleza de lágrimas escorrendo lentas nas bochechas. Eu via esta beleza. Azul e cinza
como o olhar de um avô doente. Eu me lembro bem.

 

Cantavam uma canção sobre a espera. Todos esperávamos. Até a falecida baleia parecia ouvir esse estranho canto que a iria devorar. Tentava controlar minha respiração. Ainda ter pernas foi o que me acalmou. Os tubarões eram lindos e isto me era de enorme consolo. Afinavam sua música. Eu vi dentes do tamanho de minhas mãos, exércitos enfileirados entre a terra e o céu da boca. Poderia gritar, mas quem nadaria para o resgate suicida? E, então, fiquei. Aceitei. O encanto que me enchia transbordava o medo. E era certamente maior do que os litros de água que poderiam me preencher. Ou os membros que poderiam me amputar. Ali estava meu corpo, rodeado pela calma beleza do tubarão. Entre me afogar ou viver, decidi viver, batia os pés agora com tranquilidade. O resto, os tubarões poderiam escolher por mim.

 

A um sinal que meus ouvidos não foram feitos para ouvir, os tubarões se lançaram para o cadáver que velamos até então com alguma solenidade. Suas mandíbulas rasgavam pele, carne. Trituravam músculo cheio d’água. O cheiro (que o medo havia transformado em hábito) estava vivo de novo em minhas narinas. Cantavam agora uma canção alegre. Sua brutalidade era leve. Medida. Calculada. Comiam felizes e estavam felizes por estar ali, era sobre isso a música que cantavam. Agradeciam o mar pela baleia oferecida. Mar deu, mar come era o que dizia seu refrão. Estavam contentes por existir. E sobreviver por mais um dia. A baleia desaparecia. Como se o mar a tragasse e seu pulmão reivindicasse para si pedaço após pedaço, até que a baleia não fosse mais baleia, fosse apenas ele; Mar. Este era o dever do tubarão e era assim que agradecia: tragava a baleia em Seu nome.

 

Os tubarões provocavam suas próprias ondas. Estávamos em águas desenhadas só para nós. Eles chegavam pelas fronteiras cada vez mais distantes. Pareciam saber. Cumpriam com um antigo e raro ritual. Um festival de excessos e maravilhas que só se dava algumas vezes ao longo da vida. Do meu corpo, tubarões embaixo, dos lados, na frente e atrás. Ignoravam-me. Percebi que pelas bocas dos tubarões, eu não morreria. O mar, no entanto, talvez me matasse pela intrusão. Estava em um lugar, pensei, em que obviamente não deveria estar. Estava vendo algo que não me criaram para ver, imaginei.

 

Meus pés cediam ao cansaço. Logo não restaria mais qualquer vontade de vida capaz de impedir o que me parecia inevitável. Eu via as crianças que presas em redemoinhos encontraram destino similar. Via seus lábios roxos e suas línguas inchadas, seus peitos estáticos. Pensei que deveria ter aprendido com suas histórias. Poderia tentar nadar, é claro, mas jamais chegaria ao guarda sol. Melhor permanecer onde era belo. E os tubarões não paravam de comer. A baleia sumia agora devagar. Senti meu corpo escorrer em direção ao profundo mar; atravessava suas peles. Permaneci de olhos abertos. O costume e o afeto faziam com que meus olhos acolhessem o sal. Não encolhiam nem se escondiam, abraçavam o salgado. Nele, viam melhor. Vi o corpo flutuante da baleia que impedia a luz. Um silêncio verde escuro inundou meus olhos e ouvidos. Eu enxergava os corpos dos tubarões.

 

E, então, eu vi. Abaixo do banquete, os tubarões se tocavam. Seus corpos se encontravam, se roçavam. Fincavam de leve seus dentes nas costas uns dos outros. Os arranhões pareciam esboçar mapas. Mapas não previstos em nenhum código. Não se contorciam, não era violência. Era adoração. Se encontravam. Exploravam uns aos outros com a boca. Pensei que não havia nada de horrível nessa morte. Morrer vendo o sexo dos tubarões. Soube, então, que me observavam. Sentiriam a morte dos afogados? Comeriam a mim como comiam a baleia? Mas não me comiam. Eu também sobrevivia.

 

O maior dos tubarões se aproximava de mim. Nadava lento em minha direção. Eu via somente o focinho. O focinho é fraco. E que importância tinha isso? Não, não daria golpes inúteis. Afogaria-me e o mar me tragaria em meio a feliz canção que mais cedo ouvi. Ela estava cada vez mais perto. Seu focinho encontrou meu nariz. E eu vi aquela tubarão sorrir. Sorriu para mim. Tudo derreteu. Aquela tubarão me conhecia, eu soube. Sabia quem eu era. Entendi, então, que os tubarões sentiam, mas sentiam diferente dos outros. Os tubarões também tem medo de morrer, também estão aflitos por estar no mundo. Quando chega a hora, também pedem mais um minuto, eu ainda não estou pronto. Os tubarões também têm uma história. Eu vi nos olhos daquele tubarão.

 

Veio, então, uma força que não pude compreender. Pensei que este seria o momento em que de criança eu me tornaria alimento. Não. Tubarão me jogou para longe. Neste salto que eu não dei, reencontrei o ar. Reencontrei as ondas. E as ondas me levaram para a praia. E na praia, eu estava criança viva. Mas algo novo nascera em mim. Algo imprevisto. Um tubarão agora nadava em meu peito. Um tubarão despertado pela beleza e força do sexo dos tubarões.

 


 

 

 

Livro: O sexo dos tubarões

Autor:
Naná DeLuca

Gênero:
Romance

Número de Páginas:
140

Formato:
14x21

Preço:
R$ 38,00 + frete