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Alexandre Brandão

ALEXANDRE BRANDÃO

 

As primeiras crônicas de Alexandre Brandão são de 2000, ano em que passou a escrever em um jornal de Passos, sua cidade natal. Desde então tem contribuído com outros periódicos e, mais recentemente, com a Rubem, revista eletrônica dedicada à crônica. Em 2012, publicou uma primeira coletânea, “No Osso: crônicas selecionadas” (Editora Cais Pharoux), nome que remete ao seu blog.
O autor escreve contos —  são quatro títulos publicados, o primeiro em 1995 e o mais recente, “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio), em 2013 — e poesia, gênero com o qual se viu pela primeira vez publicado (Suplemento Literário de Minas Gerais, nos anos de 1980).




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Conheça 3 crônicas do livro O bichano experimental, de Alexandre Brandão:





O bichano experimental


O gato que não tenho teme o Zorro, o cachorro que eu tive. O temor não tem a ver com a possibilidade de ser devorado, já que o tempo de suas existências é distinto: um viveu ontem; o outro, o gato, talvez viva amanhã. Não sendo temor físico, só pode ser ciúme. O gato que não tenho quer o afeto que devoto aos animais todo para ele, com o que não correrá o risco de me ouvir dizendo: “O Zorro, sim, era o bicho”. O gato que não tenho é um absolutista.


O gato é gato porque tem olho de gato. Um gato sem olho de gato gato não é — embora uma rodovia com olho de gato não seja um gato. (É mais ou menos a história contada por Mary França e Eliardo França — O rabo do gato, Editora Ática —, só que, na visão deles, o rabo define o gato.) O gato que não tenho tem olhos azuis tão intensos que a cor, como a batatinha quando nasce, se esparrama por toda a extensão do seu corpo. Seu pelo branco parece azul. Seu focinho é azulmente triste.


O gato que não tenho gosta de unhar a porta, de arranhar as paredes e de rasgar o tecido do sofá. Quando se entusiasma, destrói porta, parede e sofá, mas, em contrapartida, perde as garras (por um tempo). Resta-lhe o bigode, que passa a exibir como símbolo fálico. No caso do gato que está por nascer e que, depois de nascido, poderá ser meu, seu bigode (preto, mas com halo azul) vive eriçado, e ele roça seus fios por todos os cantos da casa. Menos no terreno da gata que não tenho nem terei para evitar a procriação e o problema de distribuir gatos entre amigos.


Em vez de jantá-los, meu bichano experimental gosta de dar umas bandas esgoto afora com os ratos. Além de franquear minha casa à visita de seres tão asquerosos, no fim das farras, ele volta sujo e esfarrapado. Em tom de ironia e ameaça, digo-lhe que até mesmo sete vidas se consomem com alguma rapidez. Ele então me confessa que já queimou seis das sete e veio para morrer comigo. Em seguida, com calafrios e olhos púrpuros, o gato que não tenho ataca, com as unhas, uma fiada de poeira e, influenciado pelas companhias, rói o silêncio matutino de nossa casa.


Quem disse? Não sei. Drummond? Talvez. Mas ouvi que os gatos se acariciam em nós e não aceitam que nós os acariciemos por nossa vontade. O meu gato não meu age desse modo, sem tirar nem pôr, e, assim como vem, vai. Se arrisco um gesto espontâneo em sua direção, ele me morde, último sinal de seu parentesco distante com os tigres-de-bengala. Aliás, o bichano sonha se encontrar com os poucos tigres-de-bengala ainda existentes no mundo e não entende, por mais que eu explique, a existência de um valão oceânico que, ao separar a América da Ásia, estabelece a lonjura. Ser nascido depois da internet, todos os lugares, para ele, são o único sítio pontocom. Como não bastasse sua dificuldade com latitudes e longitudes, os tigres não respondem suas mensagens no Facebook, com o que ele sofre uma frustração tigrina e passa a falar mal da família.


Há uma relação amorosa entre escritores e gatos, explicada, segundo certa hipótese, pelo fato de ambos serem solitários; pode ser, mas acho que a razão é outra. O gato é excelente revisor, e não há escorregada gramatical que lhe escape do olhar (azulado em alguns casos). Na língua do gato, os próprios advogam, não se comete erro. Talvez seja verdade, mas, na base do miado, ninguém consegue registrar um delírio causado pela larica de uma dor profunda. Como esse que arrisquei agora.

FC set/2013


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João

 

 

“Deus é propício” ou “graça divina” são significados do nome João. Entre aqueles que fundaram a era cristã, dois Joões se sobressaíram: João Batista, que batizou Jesus, seu primo, e João Evangelista, o mais longevo dos apóstolos.


Meu padrinho era João, mas ninguém o chamava pelo nome. Lôzo, o apelido. Não se casou. Gostava de tomar uns tragos. Fumou bastante e, por isso, um câncer na boca desdentada havia não sei quanto tempo.


O primeiro a quem chamei de João, porque João era, foi meu tio João Ernesto. Sobrevivera a um derrame, tinha dificuldades motoras e brincava de boneca. A casa na qual ele e tia Maria viviam, na Rua Formosa, tinha um quê de magia: na sala, um homúnculo de madeira batendo um pequeno sino anunciava as horas no relógio de parede e, no quintal, um banco que eu só via nas praças ficava a minha disposição para subir, deitar, pular e até me sentar nele para ficar burilando minhas primeiras caraminholas.


João Batista virou Tista, amigo de escola em cuja casa a Bá torcia, feito eu, pelo Botafogo. João Gaiola, hoje perdido no tempo, decerto gostava de prender passarinho. Nós todos gostávamos. Deixei de gostar ainda criança.


Tratavam o João Veloso como retardado. Dançava sozinho tanto na pista das matinês dançantes quanto na rua, neste caso para chamar chuva. Certa época, ele passou a visitar a casa de meus pais — com seu provável metro e noventa apanhava mangas na árvore alta e custosa. Foi quando descobri sua inteligência. Retardado não era — era (quem sabe continue a ser) uma pessoa especial, que, quando queria, fazia chover.


João Timponi, um terapeuta para meus 18 anos de muitas incertezas e certa gana de ferir o mundo com a unha.


Quando ouvi o Amoroso, de João Gilberto, comecei a prestar atenção à dobradinha técnica e emoção. Uma vez, num bar do Leblon, sabe-se lá por quê, eu estava sentado no banquinho do piano. João Donato – sim, ele – cutucou meu ombro e pediu o lugar para “improvisar uma coisinha”. Com aquela trilha musical, tive a ilusão de que a vida é sempre generosa.


João Cabral de Melo Neto, João Guimarães Rosa, João Gilberto Noll: Joões para meu bico de leitor respeitoso. João Paulo Vaz e João Mattos são de outra natureza: dividimos nossos originais, portanto o que espero deles — e acho que esperam o mesmo de mim — é que não respeitem em demasia meus rascunhos.


Chegou meu dia de ser pai; isso há tempo. O primeiro filho, João. Não para homenagear alguém. Foi o gosto comum da Bia e meu. Meus pais, que não escolheram nomes bíblicos para os filhos, estranharam. Não liguei — não ligamos. Meu João, hoje um homem, um homem admirável, caça seu rumo. E viver não é outra coisa senão caçar o rumo, sabendo-se que o rumo adora brincar de pique-esconde.

 

CNP ago/2013



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Quatro

 

Silêncio

 

É de dentro do silêncio — caverna sem sombra, colo extemporâneo para um homão feito eu — que escrevo agora e de onde imagino não sair tão cedo. Silêncio, com medo de se quebrar, não dá margem nem a pensamento, pequeno que seja.
O canto das cigarras faz parte do silêncio. E, no extremo silêncio, ouve-se o formigar das trabalhadeiras. Logo, concluo, o silêncio silencioso é uma invenção, mas o meu, agora, este —  ah, este silêncio! — fechou as portas para o mundo, e o mundo foi fazer barulho lá longe, na p que o pariu ruidoso.

 

 

Preto e branco

 

Leio o livro duplo de Nilma Lacerda. De um lado Viver é feito à mão, de outro, Viver é risco em vermelho (bela edição da Editora Positivo). Duas histórias muito parecidas e, assim mesmo, inconfundíveis. Parecidas porque as duas personagens se envolvem com a escrita, porto ao qual chegam como forma de lidar com suas dores. Distintas porque a menina da primeira história é de classe média, branca provavelmente. A da segunda, negra, vive sem pai nem mãe na favela da Maré. Os problemas da primeira estão associados à família e a toda aquela engrenagem que roda a partir da intriga de um contra o outro, do amor de um pelo outro. Os da segunda advêm da penúria — ponto além da pobreza. O arranjo gráfico do livro é tal que Viver é feito à mão se lê da forma habitual: à esquerda, as páginas lidas; à direita, as que devem ser lidas. Já em Viver é risco em vermelho ocorre o contrário, à esquerda ficam as páginas não lidas. Simplificando: o primeiro se lê de frente para trás e o segundo de trás para a frente (do objeto livro, não da história). As duas narrativas confluem para as páginas centrais, nas quais o livro acaba, mas — uma vez que aquelas personagens ganham, a partir de contornos tão claros, existência —, as histórias não. Maurício Negro, responsável pelas ilustrações, talvez para evitar a dicotomia cromática sugerida pela pele das meninas — ponto importante no que se conta —, opta pelo vermelho como a cor dominante. Um acerto e tanto, pois o livro é, para resumi-lo em uma só palavra, ardente.



Música

 

Para me acompanhar vida afora, se tivesse de escolher uma música, uma única, eu estava frito — à milanesa. Uma só? Isso não existe. Por natureza, gosto das que chamam ao repouso ou à reflexão e, se a hipotética escolhida convidasse à dança, seria um acaso, uma interferência no destino da música que não foi feita para dançar.
Dito isso, elejo Clube da esquina, parceria do Milton com os irmãos Márcio e Lô Borges, como a música que tenho levado pela vida. Ouvi-la me remete ao período no qual fui deixando de ser menino para me tornar esse homão capenga que sou. Sua letra é noturna e esperançosa, duas grandezas que não se somam, dois touros bravos mantidos apartados em seus domínios.

 

A lua

 

Eu e Bia fomos ver a lua na Praia Vermelha. Lá encontramos o poeta e sua Cristina. Ficamos os quatro conversando amenidades, vendo e fotografando a lua — aqui e ali nos espantávamos mais uma vez com a sua beleza e então, como se quiséssemos não cair no golpe de seu encanto, voltávamos à conversa miúda, a um comentário sobre o frio ou a vida de nossos filhos. Se havia poesia ali, éramos nós essa poesia — não estávamos na condição de escritores, mas de escriaturas.
Não sei se, de volta a casa, o poeta escreveu para aquela lua. Eu não, a lua não é para o meu bico de escritor, além do mais, já existe o Moon do cão, poema de meu amigo Antonio Barreto (no livro Vastafala), vindo ao mundo sabe-se lá sob qual feitiço. Fiquem com ele, enquanto eu caço por aí alguma musa menos luminosa.


Lua, deixa de ser assim tão branca
.........e egoísta!

Que vida besta esta tua:
aí parada entre tantas coisas
.........inúteis

satélites, estrelas, naves noturnas:
.........tanajuras de verão!

Lua capitalista! Uivo branco de Deus!

.........Urubu do Além!

Desça daí... Vem morar comigo, vem,
que te dou um Sonrisal e um Cadillac
em troca de um soneto de Olavo Bilac!

 

 

R set/2015

 

 


 

 

 

Livro: O bichano experimental

Autor:
Alexandre Brandão

Gênero:
Crônicas

Número de Páginas:
180

Formato:
14x21

Preço:
R$ 40,00 + frete