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Priscilla Menezes

PRISCILLA MENEZES

 

Priscilla Menezes nasceu em 1988 na cidade do Rio de Janeiro.  Morou por vinte anos na ilha de Florianópolis, onde cursou a faculdade de Artes Plásticas. Retornou à sua cidade natal para prosseguir os estudos acadêmicos nessa mesma área. No mestrado pesquisou os artistas viajantes.  Atualmente desenvolve pesquisa de doutorado intitulada O feminino mal-dito como abertura ao pensamento poético.  Acredita, portanto, que há algo que se possa chamar de pensamento poético e é em torno dele que produz a sua vida: pesquisando, escrevendo, desenhando. Acredita também  e sobretudo: no retorno à terra, na força indomável da mudança,  na magia, na qualidade perene e multiforme do amor.

 

 

 

Contatos:


Conheça 5 poemas do livro Erro tácito, de Priscilla Menezes:

 

Museu de História Natural

 

Persigo o estado meditativo
rodeio os esqueletos do Cretáceo
Permaneço atenta ao ar que inspiro
e expiro, tento deslizar
cuidando para não pensar demais
afronto a queda, fluo
como quando andei bêbada de bicicleta
A vida é frágil, firme e se estende
nas altitudes rarefeitas
nos abismos preenchidos de água escura
no cerne da matéria densa
Há vida no oco, nas eras geológicas, em mim
Há em mim uma extinção, uma matilha
um estranho recurso mimético
Há vida marinha nos meus ossos
Há a insubmissão das feras, a circunspeção das plantas
Mas também não há nada disso: há o mistério
de eu estar tão decididamente aqui e ser supérflua
à cada forma de vida que me precede e especialmente
às que me sobreviverão
Tento não coincidir com o que penso
mas algo em mim celebra
essa inesperada liberdade

 

***

 

Desde aquele dia: sonhar com trampolins, mar aberto, correnteza. Aquele abraço tão brutal porque exato. Que me cortou ao meio, que me fez querer voltar, que me ofereceu tudo sem prometer coisa nenhuma. Mesmo agora, a um oceano de distância, mesmo quando te tocava, mesmo antes de te conhecer. Agora sem pistas do teu paradeiro, mas de alguma forma ainda estamos dançando ao relento. Mãos dadas e os pés entrelaçados sob um céu escuro, sob uma tenda armada em solo estrangeiro, sob um ventilador de teto. But lovers are strangers e eu assisto a uma compilação de saltos ornamentais. Me prende sem alívio o instante que separa a preparação do salto do salto propriamente dito. O segundo em que o mergulhador precisa se desfazer de si e tornar-se pura queda rumo ao imprevisto. Todo desejo de conservação subitamente se transmuta em vontade de vertigem. Desde aquele dia quero te contar sobre lançar-se no que não se distingue, sobre os banhos de mar à meia-noite. A praia tomada por crianças, amantes, todo tipo de criatura voraz. Porque só os que muito desconhecem é que podem desejar, because lovers are strangers, porque é preciso ser criança, amante, bicho para lançar-se no vazio com o peito aberto. Me lanço agora nesses dias sem você e os preencho de magia simples: sentir o pulso de um coração que não o meu, depositar moedas em um cruzamento, tirar todos os espinhos de uma flor, dar de beber a quem tem sede. É assim que aciono algumas engrenagens invisíveis, mas o mistério segue inviolável. Hoje um amigo veio aqui em casa contar que sonhou comigo. Eu chegava de jangada em São Paulo (São Paulo tinha praia) e avisava que estava dando uma volta ao mundo nessa frágil embarcação. E quem é que não está? Afinal lovers are strangers, estamos todos a um pulo do que sequer imaginamos. O que precisamos é manter a fúria, a coragem e a fé. Fúria para mover o mundo. Coragem para se fazer estrangeiro em relação a si. Fé nos mergulhos, esse outro nome para nascer e então nascer de novo.

 

***

 

Estar viva a uma hora dessas
quando tudo respira
o ar cansado de um dia tonto
Estar viva enquanto o tempo passa
implacável e de revés
Chego ao ponto de ônibus um segundo depois
Encontro seu corpo de mistérios plenos
no instante em que você desvanece
a olho nu
Mas não maldirei o tempo nem quando fico do lado de fora
nem quando só restam os farelos sobre a mesa
nem quando você passa
dobrando a esquina
Nem quando vejo o pesado astro luminoso
que agora rompe a atmosfera
justo nesse instante em que estou viva e atenta
olhando para o céu
Mas o tempo é o cobertor que guarnece
meu corpo contra o vigor do instante
O instante é onda que me traga para o fundo do oceano
e me devolve a um ponto incalculado
Sento-me sóbria à mesa
enquanto planejo minha subida até o cume
À tarde jogo paciência, na atmosfera morna
desse verão que é metade proximidade do sol
metade medo do que virá
Enquanto faço a mala, dou abrigo aos cães de rua
Concedo luminosa beleza
a toda sede jamais aliviada
Substituo a despedida por um enigmático silêncio
na hora mais pesada
da noite mais curta do ano
Agora é a hora certa
lanço-me ao salto sem prever a dimensão da queda
A magia é o que nunca falha,
mas o que falha pode ser um misterioso mover
de uma perigosa engrenagem
nunca antes acionada

 

***

 

a fechadura não funciona, eu te vejo de passagem
finalmente vai chover
você passou feito um furacão
almoço sozinha às três da tarde
de frente para a parte desconhecida da avenida
talvez não seja a chuva, mas um navio que se aproxima
abro o jornal sobre as coxas enquanto pesco as batatas com um garfo  
mulher, meia idade, desaparecida desde ontem
região metropolitana, aproximadamente 1,65
cabelos acobreados, vestia blusa estampada e calça jeans
liquidificador seminovo, jarro de vidro com capacidade para um litro
bagatela, buscar no local
talvez você esteja na esquina
talvez eu não acorde do teu lado
revisão tradução redação
da sua monografia, bacharel em letras pela universidade federal
doação de ninhada, transformo seus vídeos vhs em dvd
a porta entreaberta, você tomava um banho demorado
revestia todas as superfícies translúcidas de vapor
cobria o chão de perigosa umidade
teu cabelo molhado grudado em tuas têmporas
eu te disse: você não sabe da maior
eu te convidei para conhecermos aquela região estranha
da grande avenida que corta a cidade de norte a sul
você passou feito um furacão
adote um amigo, guarde suas memórias, loira deliciosa insaciável
morena carinhosa discreta, local refrigerado
tenha o amor  da sua vida a seus pés
pago a conta sem maiores esperanças
nenhum rumor adicional
grande planeta se aproxima da terra
o fim está próximo
pare de sofrer

 

 

***

 

Carta ao homem

 

é aqui nesse ponto que perdes
tua arbórea ascendência
aqui crias parentesco com os nós
a terra escura, o mármore, os novilhos
aqui eu te transmito esse dom:
eis que não serás remédio para nada em mim
vagarás pelo meu corpo, supérfluo
porque apenas quando souberes ser insuficiente
poderás transitar em liberdade
o que quer dizer: falhando
e tua caminhada te levará ao desencontro
mas é justo nesse ponto que nos encontraremos
tua mão tocará o mais fundo do meu peito raso
e eu reagirei como se esperasse uma flecha
acertar a maçã equilibrada no topo da minha cabeça
e com gula plena de um corpo alimentado  
morderei tua pele agora órfã
escaparei no instante em que me entrego
feito bicho que saboreia a isca e se salva
um segundo antes da armadilha desabar
em mim, tu amas a terra, os solos férteis e os incêndios
tens amor pelo vidro, as prateleiras, os tapetes
amas também o meu corpo
e amando meu corpo sabes amar
alegremente a transitoriedade desse instante
agora
pesado e flutuante como o navio e também
traiçoeiro como o mar
subitamente, nasces
consanguíneo a tudo que ignoras
e eu juntamente
improvável berço meu

 

 


 

 

Livro: Erro tácito

Autor:
Priscilla Menezes

Gênero:
Poesia

Número de Páginas:
100

Formato:
14x21

Preço:
R$ 38,00 + frete