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Fábio Mariano

FÁBIO MARIANO

 

 

Fábio Mariano nasceu em São Paulo, capital, mas foi criado em Campinas, SP, onde vive desde o seu primeiro ano de vida. É formado em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Campinas, e defendeu em 2015, nessa mesma instituição, sua dissertação de mestrado em Teoria Literária sobre a obra de William Faulkner na França. O Gelo dos Destróieres é seu livro de estreia.

 

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Conheça 2 contos do livro O gelo dos destróieres, de Fábio Mariano:




O Muro




Quando ele me perguntou E agora, Bernardo, E agora?, eu não soube responder por que tínhamos chegado até ali. Primeiro, porque nós não tínhamos roubado; eu estava certo disso e ele também estava. Estávamos, é verdade, nós dois, fugindo, mas não como criminosos, só como fugitivos (veja, a diferença é fundamental!), e éramos fugitivos não de uma seita ou de uma festa de formandos, mas de uma certa configuração dos postes, ou do fato de lhes faltar luz, ou do fato de não podermos mais apagar neles nossas cinzas. Mas também não sei porque não podíamos mais, eu diria, eu, Bernardo, o fato é que não roubamos e que, se fugíamos, não era por medo. Por medo ninguém foge, eu acho; por medo tampouco se fuma ou se rasgam pijamas, camisolas, tampouco se pensa em decapitar amigos diante dos muros, ainda que seja munido de uma foice feita de ar e um cansaço ofegante.


Começamos entrando pelos fundos da casa. Foi fácil, e era de algum jeito familiar e dócil entrar naquele antro de santidade: 1. era a MINHA casa, a casa que os MEUS avós me deram 2. era como se estivesse toda arrebentada, mas não pelas estruturas; toda estilhaçada, mas os rasgos dos estilhaços convivessem bem 3. não servia mais como o refúgio que um dia tinha sido 4. não se poderia dizer que tivesse sido comprada ou alugada ou vendida ou seja lá o que for 5. ninguém nunca comprovou a origem de meu avô 6. nem eu.


Começamos entrando pelos fundos da casa. Foi fácil, e era de algum jeito minha responsabilidade levar tudo a cabo; afinal, quem tinha desenhado o plano era eu. Quem tinha comprado os canivetes era eu. Quem tinha o mapa das coisas enterradas era eu, Mas Bernardo, caralho, você tem certeza que esse mapa é certo? É claro, porra, é claro que esse mapa é certo, olha só, a gente entra por aqui e depois se desvia, aqui fica a maior das rachaduras, pronto, olha, é simples, muito simples, Germano, meu argentino preferido, seu puto. Mas Germano não sabia porque tínhamos que ter cada qual o seu canivete, e bem afiado, de modo que não quis entrar daquele jeito, Vamos é botar fogo na casa, Bernardo, botar fogo e ir embora, e eu Não Germano, não vamos botar fogo porra nenhuma, que ideia mais escrota, mas Germano, Germano Mabel, meu argentino preferido, insistia e eu até deixei ele levar uma merda de uma bomba, dessas que se solta em festa junina ou sei lá o que. Quando ele falava de botar fogo eu me lembrava de uma ave estúpida, mas mais que dessa ave, eu me lembrava de um pintor, amigo dos meus pais, que era quem a tinha pintado. E a ave não me pareceu estúpida até que o pintor tivesse me explicado que as asas dela na verdade eram fossos, e que o bico era uma antena, e que ela na verdade não voava, Se você olhar bem ela não voa, mas nada entre o fogo, e era um quadro de dar dó, não porque fosse mal pintado, mas porque tentava ser tão pobremente surrealista que era um saco; o engraçado é que das mesmas mãos babacas foi sair o quadro que enfeitava o escritório da casa, por onde nós entramos, sem fazer barulho, arrombando a janela, O barulho, Bernardo, caralho, Eu conheço essa merda dessa casa, Germano, não me torra.


Não sei por que acendemos cigarros já lá dentro. Isso tem a ver com fugir, eu acho, para fugir um homem tem que acender um cigarro no lugar do qual foge, mas não é exatamente daquele lugar que ele vai embora, não é a partir daquilo que ele corre, mas a partir de uma outra coisa que estivesse ali. Meu avô me disse “quando eu disser corra, não importa o que eu fizer, não se atreva a se mexer se não pra frente, e me encare”, porque na verdade aquela casa guardava uma outra casa, que habitava as rachaduras que eu não via, Mas que merda é essa? É só a parede falsa, calma, que não tem alarme, Eu sei, Abre a porta então e olha.
Quando vi, Germano já ganhava a escada, e eu olhava ainda o quadro do escritório; eu tentava riscar com o canivete a forma que meus pais me tinham ensinado, “Olha, se você um dia sumir, meu filho, que nem aconteceu na família do seu avô, você risca esse sinal. Está vendo? Olha, se você fugir. É pra ter paciência, mas não muita. Paciência fode a vida (meus pais e o “fode” deles), fode a vida pra caramba, filho, então não tenha muita. Mas também é pra ter calma, nunca se esqueça de ser agressivo. Sempre, filho, sempre. Não se deixa acariciar, porque se não te fodem”. E eu, atrás do quadro, desenhava aquela forma estranha, meio que retangular, que os meus pais me passaram como marca da família, e que os meus avós sabiam, bem do lado de outro quadro, no qual um pintor pelado, ao estilo de Lucien Freud, acariciava uma espécie de besta (não um bicho, mas a arma), uma espécie de besta navegante ou cataléptica ou afônica (ou um outro adjetivo imbecil que aquele pintor usaria), o fato é que a casa estava cheia dessa merda, e a verdade é que meus pais, imbecis, deixaram aquilo acontecer, e eu, chorando um pouco e quase que acendendo o meu segundo cigarro pelo filtro, corri para alcançar Germano.


Esse é o quarto, Bernardo, e agora, agora o que Germano, agora aqui do lado eu sei onde meu avô escondia um pé de cabra, agora você pega o canivete e entra nesse quarto que eu já volto. Ele entrava num closet enquanto, tímido, eu recuperava o pé-de-cabra que oito anos atrás o meu avô me ensinara como usar e onde disfarçar, pra que nunca fosse pego, caso eu fosse assaltado na sua casa. Meu avô, que de mim escondia alguma coisa, mas que tinha me deixado algumas pistas, canivetes, mapas, pés-de-cabra, “rasgue as camisolas e as espalhe”, ele disse, “sempre que precisar invadir qualquer lugar; a pista sempre leva a um estuprador de bairro”, meu avô dizia, sem nenhum escrúpulo. Eu? Eu seguia porque as pistas não são feitas nem deixadas, mas são sempre organizadas e dispostas, e Germano as dispunha pelo quarto e pela casa. Deixava, claro, cinzas de cigarro (obviamente todo estuprador de bairro fuma).


Eu, o pé-de-cabra e o meu mapa já nas mãos, cheguei a ele e disse Mabel, Mabel!, preste bem atenção a isso: aqui fica o que meu avô me mandou pegar, exatamente um ano depois que meus pais cometessem a idiotice de perder a casa que ele tinha deixado pra eles, e Germano me disse Pega logo essa merda, Bernardo, e vamos dar o fora, e foi o que fizemos. Eu sabia que o assoalho tinha falhas. Eu sabia que a vagabunda que hoje ocupava a casa, mais ocupada com suas camisolas, claro (quem não ficaria assim, numa casa com um closet que é maior que um belo quarto!), eu sabia que essa vagabunda, essa va-ga-bun-da que era o kitsch, mas que eu nunca tinha visto, eu sabia que ela nunca saberia desses detalhes: onde fica o pé de cabra, qual o taco do assoalho que está solto, o que meu avô deixou pra mim. Tudo aconteceu muito rápido, e quando passei rápido, então eu percebi que eram quadros, todos, todos os que estavam pendurados no trabalho e na alma do meu avô, todos eram quadros do mesmo pintor. Da merda do mesmo pintor, pendurados ali, um a um, pela viúva que agora acordava, assustada, com medo do estuprador do bairro, subtraída de uma caixa que nem sabia que existia debaixo do seu closet.


Só então corremos, mas corremos, e muito, até o muro, dez quadras pra direita, três pra esquerda, pule a grade. Não havia cães nem nada. Chegamos ao muro de uma obra começada (ainda quando meu avô vivia) e que tinha sido retumbantemente abandonada. Acendemos, eu, Bernardo, e Germano Mabel, meu melhor amigo, meu co-fugitivo, um cigarro cada um. Nos encostamos no muro. E agora, Bernardo? E agora?, ele me perguntou, A caixa tem o que?, e eu disse, rindo, mas rindo como se estivesse vendo na minha frente uma mesinha de creche com cantis, mas soubesse que lá dentro, comprimido nos cantis, estivesse só vapor radioativo, e soubesse que o sinal do recreio estava pra tocar, eu disse, Germano, na caixinha me disseram toda a vida que eu veria alguma coisa sobre o meu avô que finalmente o acusasse, foto, passaporte, documento, porque sempre me disseram, Mabel, que o meu avô serviu a SS, E o que é que tem aí, fala logo, Bernardo, caralho, que demora, O que tem, cara, o que tem aqui dentro: não tem nada. Nada.



***



Fronteira





“Puede la piedra blanca latir en la sangre del ciervo
y el ciervo puede soñar por los ojos de un caballo”
_Federico García Lorca


Parecia um entreposto comercial entre um deserto de sal e um outro, de rochas vulcânicas. Não era Germano, mas Toro quem iria lutar.


Descemos as escadas, e eu não sabia o que nos aguardaria. Num filme, que eu vira na noite anterior, um homem muito grande (não me lembro exatamente se era o filme ou o que sonhei enquanto o filme passava e eu dormia) se apossava de uma biblioteca. Então ele tentava, um a um, abrir os livros, procurando, obstinadamente, um bilhete e um CD, que não entendi se estariam em livros diferentes ou no mesmo, e nem sei por que ele procurava pelos dois. Era como se naqueles documentos inconclusos estivesse alguma coisa de terráqueo, um último vínculo dele, com aquele tamanho de jogador de vôlei ou de escritor de romances policiais de quinta, um último nexo com alguma sociedade possível. O filme me parecia velho, e era tão absurdo pensar que ele não encontraria aquela merda de CD, e ainda mais ridículo que as aparências do filme não ornavam com a busca de um CD (e talvez fosse o objeto com o qual eu houvesse sonhado), o fato é que enquanto ele procurava isso, numa biblioteca que tomara de sei lá eu quem, uma espécie de polícia secreta contratada por algum milionário o cercava. Em certo sentido ele sabia o que iria acontecer, sabia que não iria encontrar a porra do CD, nem a mensagem, nem o livro, e o filme parece, em um dado momento, que vai cair numa breguice sem tamanho, do tipo ele encontrar o livro preferido dele na infância ou na adolescência, mas ali, no meio daquele universo o que ele encontra é um livro que escondia um DVD e algumas revistinhas pornô, e então ele começa a rir, e os soldados da polícia secreta se olham, e então acabou a força na minha casa. Foi descendo as escadas que entendi a força que faz com que um homem seqüestre uma biblioteca, e se eu tivesse que escrever o final daquele filme, os policiais desceriam aquela escada para encontrá-lo com aquela revistinha, dizendo que tinha retornado dos mortos e morrendo. Fechei a porta atrás de mim.


Lá dentro havia uns vinte e sete caras. Estavam, todos, sem camisa e com expressões muitíssimo amigáveis, ou talvez não muitíssimo, mas era uma espécie de recepção. Germano, que tomava a frente de quase tudo, não entendia muito bem por que aqueles rostos eram tão sorridentes, embora não mostrassem os dentes. Não era, pensou Toro, um rosnado. Germano era quem tinha negociado tudo. São sete paus, Sete paus cara, Apostados em você?, Não, no mais magrinho aqui atrás. Toro se apresentou, e a partir desse momento, um círculo começou a se formar, Sete paus são sete paus, e sete paus imediatos, Eu sei, Como eu disse aqui não se confere o dinheiro de ninguém, Eu sei, É, eu sei que você sabe mas eu gosto de repassar as regras, À vontade, Então o que eu assumo é que você tenha sete paus na sua jaqueta, ou em cartão, mas nós não aceitamos cartão, damos carona até um caixa se você quiser, Claro, eu tenho os sete paus, O negócio é assim: sete paus, se vocês ganharem são todos de vocês, vocês dividem ou então metem no rabo, podem fazer o que vocês quiserem com eles; os nossos sete paus ficam dentro Daquele baú ali no canto?, É, daquele baú ali no canto, Beleza. Os termos eram todos aceitáveis, de resto. Sem armas. Germano disse Claro, sem armas. Alguém foi escolhido, alguém entre aqueles vinte e sete, sei lá por que cismei com esse número, vinte e sete, talvez seja alguma previsão mística, o que eu sei é que talvez por conta da merda do filme que eu tinha visto, aquele da revistinha pornô, algo me transformou naquele dia, no dia mais errado possível, num ser suprassensível que podia atravessar qualquer coisa, até aquela escada. Até as esculturas de Coca Munhoz seriam, talvez, ultrapassáveis. E, no entanto, eu me via parado, a mim, ao Toro e ao Germano, enquanto os vinte e sete fechavam uma roda.


Toro também tirou a camiseta; e aí? Aí eles viram.


Algum tempo atrás, Toro tinha pertencido a não sei que seita ou não sei que crença pessoal. O que sei é que não era coletivo, ele tinha pesquisado, escrito alguns poemas sobre isso e depois desencanado da poesia, ou talvez fossem contos. Ou talvez não fosse nada; o que sei é que ele dedicava algumas páginas (ainda que de imaginação, sem papel nenhum) a isso, e que isso era quase tudo o que ele podia dedicar. O resto desse quase, o que ele escondia, eram justamente as costas dele, que ele chibatava, com uma regularidade absoluta, de três a cinco vezes por semana com seus cintos, e que era toda uma coleção. Só as costas, e talvez já nem doesse mais, o fato é que aquilo, no momento em que acabou, cicatrizou, e todas as marcas sumiram. Quando os vinte e sete olharam para as costas de Toro, não viram nada, e ao mesmo tempo conseguiram ler naquela paz cada uma daquelas chibatadas, sem acreditar, num excesso de legibilidade que perturbava a paz de uma aposta de luta clandestina. Toro, com uma calça jeans e o torso descoberto, a camiseta estampada arremessada no chão, estava pronto para a luta, e um dos vinte e sete, a quem chamavam Lalo, ou talvez Duda, se aproximou. Riam os outros vinte e seis, mas agora já não riam sem sarcasmo, sarcasmo dirigido, penso, contra os outros vinte e cinco, por falta de coragem de tocar o tal de Duda ou um de nós.


Os dois se encararam. Não sei quanto tempo a luta duraria. Nesse ínterim, o que tentei fazer foi observar Germano, Germano que tentava sair de dentro de si mesmo, Germano que tentava fazer com que a coisa toda fosse rápida e indolor. Germano que, a fundo, queria estar ali, queria também ter se chibatado, e percebia que eu atravessava as galáxias e estava desprendido no tempo, que a minha circulação sangüínea, naquele momento, equivalia à de algum hominídeo que estava se afogando num lago na Pangéia, Germano queria pertencer àquilo tudo, àquela luta, e não ser como o apostador, distante, agiota, um filho de uma puta. Mas Germano, que estava exatamente no lado oposto à porta, me olhava e sentia alguma dor nas articulações, uma dor passageira, que durou uns dez segundos, talvez. Então a porrada começou.


Duda tentou ir para cima de Toro com um soco ridículo, e só um movimento de deslizamento para o lado e uma cotovelada nas costas foram suficientes para arrancar de Germano um primeiro e tímido sorriso. Era a glória do apostador, análoga à solidão do maratonista, e então Toro, arrogante, virou-se para trás para ver como Duda tentava e, desta vez, conseguia encaixar um golpe com o joelho na barriga. A partir daí foi o clinch, a porradaria de verdade. Toro freqüentemente desviava dos golpes de Duda, mas parecia não estar muito empenhado em ganhar ou em fazer alguma diferença. Talvez guardasse seu esforço para mais tarde. As regras tinham sido explicadas: não havia round, nem parada, e a vitória só se dava por desmaio ou desistência. Duplo D, Desistência seguida de desmaio, implicava o dobro do pagamento pela parte perdedora. Talvez uns três dos vinte e sete se mostrassem preocupados, mas os outros encaravam a clara superioridade de Toro na luta como algo normal, convictos de que Duda ia ganhar. Até que Toro pareceu acordar de alguma coisa, uma imagem lhe entrou pela retina, e ele, arremessando Duda para longe do clinch, imediatamente lhe enfiou um pé na barriga, colocando-o no chão, de onde Duda, esperto, conseguiu uma tesoura improvisada, derrubando Toro e fazendo com que a luta, em três segundos, girasse. Duda, agora, tinha só um centésimo espremido de segundo para dominar Toro e garantir aquela luta por um belo espancamento. Toro, um milésimo intocável para pensar em alguma reação e outros nove para executá-la toscamente, na esperança de uma falha que, combinada aos guts e à malícia, se tornasse fatal.


Olhei para os olhos de Germano, e ele os tinha fixos nos de Toro. Demorei a entender o que Duda (ou Lalo, não lembro o nome dele) fazia de joelhos, mas o fato é que os dois, de repente, tinham se entregado a alguma coisa. Um barulho, que demorei a ouvir, talvez por conta mesmo da minha suprassensibilidade, um barulho que eu não era capaz de decifrar. Não tinha, por algum motivo, adquirido as imagens das quais precisava para interpretar ao todo aquele guincho, que era um guincho, com certeza, mas talvez fosse também um rangido ou um gemido. Olhei para os olhos de Germano, e os dele nos de Toro, e foi ali dentro que encontrei, elevado à milésima potência, o som que lançara Lalo/Duda de joelhos e que lhe fazia, no momento, chorar copiosamente, como uma criança. Dentro dos olhos de Toro, que eu via nos olhos de Germano, vi o que só a conjunção daqueles dois poderia interpretar. O guincho vinha de um animal, talvez um porquinho da índia ou um chinchila, ou ainda – muito mais provavelmente – um porco, sim, um porco desses bem peludos, que era torturado com grande sofisticação e pompa, em alguma das salas contíguas. Não percebi se havia, de fato, alguma sala ou alguma outra entrada para aquele porão onde nós nos metemos quando entramos nessa luta, mas o fato é que em algum lugar ali, ao lado, ou talvez atrás de uma das portas trancadas em que eu não tinha reparado, um porco era torturado com a delícia de oito ou doze homens e mulheres, ou talvez de mais, com o único propósito de fazê-lo guinchar. Usavam, para isso, alicates e fervuras, alguns tipos de agulhas e cortantes, substância que queimavam, diferentes tipos de plantas, ácido de pilhas e alguns outros ácidos, cloro, um martelo – talvez dois martelos – um rolete, uma mesa de tortura especial, como aquelas da idade média. Usavam, também, brasa de carvão e alguns improvisos, como compassos com duas pontas secas, e alguns saca-rolhas, que não sei de que modo utilizariam, mas que estavam ali, dispostos. Tudo isso deveria ser rigorosamente calculado para não matar o porco, ou pelo menos não matá-lo antes da hora, e para produzir aquele guincho, aquele guincho estranho que Lalo (ou Duda) sofria, que lhe arrancava lágrimas sinceras, e que Toro conseguia interpretar só através da ajuda dos olhos de Germano, e que os outros vinte e seis, e que o apostador, recebiam através de uma espécie de paralisia ou transe. De joelhos, Lalo, que era um adversário à altura de Toro, se rendeu pelo choro, desistindo de lutar sem emitir qualquer palavra. Não se encontrava em condições, talvez, de se levantar daquele chão nos próximos três dias. Isso só eu consegui enxergar, embora Toro e Germano o tenham conseguido interpretar; é algo que se formou no interior de uma retina no interior de outra, um conjunto de imagens que não poderia sair nunca daquela conjunção para um cérebro ou para uma espinha, mas que poderia entrar na minha pele escamada, e que naquele momento foi para mim uma visão sem significado, mera possibilidade de interpretação de um fato a partir da música grotesca, da qual fui acordado por Germano. Germano, que gritava como um louco, me puxando pelo braço, com Toro logo atrás, e só então voltei a mim, com Germano dizendo que Fodeu, Fodeu Bernardo, vem, e voltei a mim, para perceber que os vinte e sete (menos Lalo, menos Duda), já corriam na direção da porta para onde dava aquela escada, e que já nos tentavam cercar, Porra, porra, porra, e então, disse a eles que Agora a gente vai, e então vimos que um deles alcançou a porta; e sem entender, já desprovido de qualquer atributo especial, olhei para Toro, que, deixando a camiseta ali jogada, passou a mão no bolso da calça, no momento em que arranquei, com um movimento só, o cara que tentou guardar a porta. Vi Germano e Toro virarem, e Toro, com a mão dentro do bolso, segurava o soco-inglês que eu e Germano lhe compráramos no seu aniversário.

 

 


 

 

 

Livro: O gelo dos destróieres

Autor: Fábio Mariano

Gênero: Contos

Número de Páginas: 120

Formato: 14x21

Preço: R$ 40,00 + frete