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Thalita Coelho

THALITA COELHO

 

 

Thalita Coelho, além de escritora, é professora de português e doutoranda em Teoria Literária, na linha de pesquisa de Crítica Feminista, pela UFSC. Capricorniana com ascendente em leão, apaixonada por gatos, celíaca e vegetariana, o seu amor pela escrita veio antes mesmo de sua graduação ou da descoberta de que nunca mais poderia comer um pão de trigo; quando criança, mergulhava pelos sebos da cidade em que cresceu, Itajaí, exercitando a curiosidade e instigada pela leitura acabou participando de atividades relacionadas à escrita em sua escola, publicando um haikai aos dez anos de idade. No intuito de preencher a lacuna da representação lésbica na literatura, representa a si (e a outras) por meio de seus textos que narram o transcendental no íntimo de mulheres que amam mulheres.



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Conheça 6 poemas do livro Terra molhada, de Thalita Coelho:




traduzi seu nome pra língua do meu corpo
de hoje em diante te chamarei
umidade



***



MULHER

 

a solidão necessária para se aproximar do outro, não, da outra. para se enxergar e pôr no papel, melhor, na folha, para que uma mulher passe os olhos, digo, a visão,  sobre  todo o meu corpo, perdão, minha matéria e substância, e possa ler nas entrelinhas e linhas de expressão, nas marcas, não de roupa, mas de tempo, droga, da idade, todas elas inscritas na minha pele, um discurso, não, palestra, sobre o ser nós e o ser eu, sobre a coletividade impressa na indivídua; sujeitas subjetivas não subordinadas.
todo o meu escrito é mulher, ou melhor,  toda a minha escrita é mulher, pra mulher, de mulher, em mulher. mesmo que não se saiba o que é. essas letras são mulheres, a tinta impressa será mulher, o toque no teclado foi mulher, os olhos que lêem são mulheres.
tudo que sai de mim se esvai pra preencher nós. mulher. minha dor é mulher. minha amor é mulher. minha pensar é mulher. minha escrever, também mulher. minha verbo é verba que sustenta o ser mulher, a poesia nada poética dessa linharada escrita por uma mulher que não sabe fazer poesia mas sente a poesia na carne. e sabe quem é, e é mulher, visível, saída da terra enterrada, saída da casa trancada, saída da sombra.
e se perguntarem se importa ser mulher eu digo
sou
e se perguntarem o que é mulher eu respondo
sou
e se mandarem calar a mulher eu grito
sou
e saio mulher,
de mãos dadas com outra.



***




Ouço e canto alto cada música como se o grito advindo fosse mesmo de mim, composição nova, fresca, saída do forno. Não consigo pôr em palavras o arrepio resultante do silêncio arredio, mas sempre tento, falhando gloriosamente.



***



se não for pra ser caótico
nem me olha
eu gosto da bagunça
do berreiro
da lucidez escandalosa
eu gosto do debate acalorado
sobre nossos medos
anseios
desejos
vontades
que silenciosamente esperneiam
suplicam
por aquele olhar
ou como costumo chamar:
caos



***




eu plantei meus pés na terra por sete dias
por sete tardes eu reguei
observei o sol chegar em 7 manhãs
em sete noites eu senti as raízes
que começavam lentamente
a construir caminhos
no chão fértil
no 8º dia eu virei flor
aí você chegou para me colher
e eu não queria morar mais ali
eu queria fincar raízes no seu peito
terra adubada com dor



***



nos seus dedos
mora sempre
um pouco
de mim

 

 


 

Livro: Terra molhada

Autor: Thalita Coelho

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 120

Formato: 14x21

Preço: R$ 40,00 + frete