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Yuri Cortez

YURI CORTEZ

 

yuri wittlich cortez cresceu em Guaratinguetá – SP, mas veio pra capital do estado e nunca mais conseguiu escapar. É graduado em relações internacionais, mas hoje em dia estuda letras e faz uma especialização em educação. Já trabalhou como plantador de batata, cavaleiro medieval e funcionário de escritório, mas no momento se vira fazendo revisão de texto, dando aulas particulares e como plantonista em uma escola. Gosta de ler e de escrever desde miudinho, e tenta aparecer em todos os saraus e slams que a vida de estudar e trabalhar permite. Mora com dois amigos e uma gata, todos também guaratinguetaenses, e detesta escrever sobre si mesmo.




Contatos:







Conheça 5 poemas do livro A guerra, de Yuri Cortez:






poética

 

são duas etapas
as do nosso ofício;

todo dia repita
pra não esquecê-las:

engolir dragões,
vomitar estrelas;

engolir dragões,
vomitar estrelas



***



arquitetura forense


cada muro é um crime
não há um muro que não seja um crime
só paredes são santas


paredes nos protegem dos lobos
dos ventos e dos resfriados
mas os muros nos protegem dos homens

e por isso são um crime
nenhum homem é o vento ou a gripe
nenhum homem é os lobos

toda prisão é um genocídio
crimes empilhados sobre crimes
muros verticais e horizontais que
separam os homens da humanidade
e do sol


toda prisão é um genocídio
toda prisão não passa de
uma pilha de muros com homens dentro

o que é o lado de dentro de um muro?

se ainda há muros
é porque estamos todos presos



***



A guerra I

 

1.


Vento com cheiro de noite
Travestido de lua e de sangue
Permita a irmãs e irmãos celebrar esse instante

Dança no tom da viola
No sussurro da chuva que finda
Não foi criada canção mais bonita ainda

2.


Morte, irmã velha e sem rosto
Tão sozinha no meio da festa
Quem te escolheu pra ser musa de ainda outra gesta?

Mãe da seca que me assola
E da chuva que mata meu povo
Em meio aos raios de sol recomeça de novo

3.


Dispenso sela e arreio
Minha mão pesa mais uma espada
Mas contra o vento da noite, nada pesa nada

Por mais que a lua lhe esconda
E o tom da viola nos convença
É outra vida que cai pela mesma doença



Eu, que sou filha de um povo
Que se esconde no alto da serra
Já me cansei de lutar nessa guerra

 

***

 

Uma guerra em quatro parágrafos

 

Exumaram o cadáver do velho, aquele que foi torturado e morto em um campo de concentração. Cobriram sua pele deteriorada com camadas de borracha e silicone. Pintaram seu corpo de um tom suave de rosa, e avermelharam suas bochechas e a ponta do seu nariz. Colocaram duas bolas coloridas de gude em seus globos oculares, e apararam e pintaram suas barbas e cabelos e unhas.

Vestiram seu cadáver com uma elegante farda, e convidaram seu cadáver para jantares elegantes, onde teve a honra de conhecer os cadáveres mais ilustres.

Espetaram eletrodos em suas orelhas e em sua nuca, para que, pela aplicação de choques muito bem calculados, lhe fizessem mover os olhos, as pregas vocais, a boca e, com uma carga um pouco mais alta, mesmo um dos braços.

Hoje tem seu próprio programa na televisão, no qual declara as maravilhas que a medicina imperial fez por seu cadáver e pelo cadáver de seu povo desde que foram conquistados.



***



Tigre

 

os homens que com ferro nos matavam
seus dentes sabres balas e feitiço
se evaporaram diante da aurora:
são tigres de papel, e já nem isso

 

 


 

 

 

Livro: A guerra

Autor: Yuri Cortez

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 80

Formato: 14x21

Preço: R$ 38,00 + frete