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Reynaldo Bessa
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REYNALDO BESSA


O Autor do livro de contos Algarobas Urbanas (finalista do Prêmio Sesc de Literatura - 2010), é músico e escritor. Já lançou cinco CDs, o mais recente com músicas suas sobre poemas de diversos autores brasileiros. Em 2008 lançou seu primeiro livro “Outros Barulhos – Poemas” (Prêmio Jabuti 2009 - Poesia). Tem contos, crônicas e poemas publicados em revistas, jornais, suplementos literários pelo Brasil e exterior.

 

 

 

Contato:

Skook de Algarobas Urbanas

 

 

Trecho do conto “Are you lonesome tonight?”

 

(...) "Numa dessas madrugadas frias e sem rosto, em que a lua é extraviada e todos os cães são silenciados. Quando você tem que retirar a armadura porque o corpo não aguenta mais arrastá-la. Quando você tem que depor todas as armas porque não há mais forças para empunhá-las. Quando a dor que se traz sob a pele não é resolvida em farmácias, hospitais, igrejas, bares, lojas de conveniências, postos de gasolina e sei lá mais aonde, eu ia lhe dedicar uma oração enquanto minha alma abandonaria meu corpo e vagaria por desertos longínquos. Numa dessas madrugadas estropiadas eu entregaria os pontos e diria: tudo bem, eu perdi, eu aceito, aqui estou.” (...)



Trecho do conto “Oh! Esses acordes menores”


(...) "Ouvimos Simon and Garfunkel até o começo da madrugada. Meu irmão olhava pra radiolinha como se esperasse que a famosa dupla saísse dali a qualquer momento. Eu o olhava de soslaio. No dia seguinte embarcaria pra São Paulo. Ele e um amigo. Nesse tempo meus pais diziam que todos os empregos estavam nesta cidade tão sonhada e distante. Minha mãe entrava e saía de casa constantemente. Eu sabia que ela precisava se mexer pra não desabar. Era a primeira incursão do meu irmão mais velho numa aventura longe de casa. Pra mim, ir a São Paulo era o mesmo que ir à África. Tudo além das fronteiras da minha infância. O mundo parece mesmo encolher enquanto crescemos. Uma ex-namorada teimava em me dizer que o bolo que minha mãe fazia não devia ter o tamanho de uma geladeira como eu costumava afirmar. Dizia que eu é que era pequeno demais em relação às coisas. Eu continuo teimando com ela, mas confesso que já estou quase convencido disso. O que me sobrará depois? (...)



Trecho do conto “Olhos verdes, sarcasmos e despedidas”


(...) "Isaac pousou suas duas malas surradas na varanda da nossa velha casa. Primeiro abraçou minha mãe, depois minha irmã, meu irmão, meu pai e em seguida espanou os meus cabelos, sorriu e disse algo que não consegui entender.  Ele era meu primo. Vinha do interior pra morar com a gente uns dias. Ia trabalhar e estudar.  Tentar fazer sua vida na cidade e precisava da nossa ajuda, da nossa compreensão, da nossa paciência, da nossa casa. Ele não era bonito, mas também não era feio. Era baixo, tímido, troncudo, desengonçado, mas era sensível e tinha os olhos tremendamente verdes. Duas esmeraldas incrustadas numa rocha bruta. Posso dizer que era uma beleza típica desses rapazes do interior que nascem com alguns belos traços, mas que passam toda a vida fazendo trabalhos pesados sob o sol escaldante: cavando buracos, construindo casas, alimentando animais e outras coisas do gênero." (...)

 

 

Trecho do conto “Vinte”

(...) "Encantou-se tanto com um passarinho: com o seu canto, suas cores, seus movimentos, que perdeu completamente a noção do tempo e da direção. Parou, olhou ao redor e foi aí que percebeu que tinha feito algo que não devia. Olhou o sol e viu que este já ia longe. “Quanto tempo teria corrido atrás do passarinho?”. Procurou sua cesta com o algodão que já havia colhido e não a achou. Rodou em si. Correu para um lado. Correu para o outro e nada. “Perder algodão era perder dinheiro”. Pensou. Parou por um instante e apurou mais o ouvido pra ver se conseguia ouvir alguma voz vindo no vento. Esperou e nada. O vento vinha sempre sozinho. Nada de vozes. “Estaria muito longe?”. Não conhecia aquelas pastagens, aquelas montanhas, aqueles campos. “Como poderia ter andado tanto? O culpado era o passarinho. Será que era um bruxo?”. Voltou a procurar a cesta. “Meu deus, eu preciso achar essa coisa”.  arriscou-se a ir mais longe. Não adiantava. Era como procurar no Oceano Pacífico um barco que navegava no Oceano Atlântico. Estava realmente muito longe de casa. Sem o passarinho, sem a cesta, sem os irmãos, sem o caminho de volta, nada. Estava sozinho." (...)


 


 

Livro: Algarobas Urbanas

Autor: Reynaldo Bessa

Gênero: Contos

ISBN: 978-85-64308-08-4

Número de páginas: 125

Formato: 16x23

Preço: R$ 32,00 + frete