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Willian Delarte
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WILLIAN DELARTE

 

Autor do livro de poemas Sentimento do Fim do Mundo (Patuá, 2011) e do livro de contos Cravos da noite (Patuá, 2014), Willian Delarte foi premiado nos II e III Festivais de Literatura do Curso de Letras da USP, graduado pela mesma e finalista do 15° Projeto Nascente. Tem publicações em diversas antologias e revistas. Escreveu no jornal Conteúdo Independente e foi coeditor da revista Rebosteio Digital.

 

 

 

Contato:

Skook de Caramelos e Almofadas

 

 

Conheça o primeiro conto do livro Cravos da noite, de Willian Delarte:

 

 

COPO QUEBRADO


Quando tinha 6 anos, ganhei um leitão no bingo do bairro. Cartela cheia. Acordei de caxumba no dia seguinte, nem comi o porco. Minha mãe disse que foi olho-de-coruja daquele sujeito que me pegou forte no braço e me disse, olhando bem na bolinha do olho, “parabéns, moleque”. Não duvido. De lá pra cá não ganhei mais nenhum jogo, forca, biriba, nem par ou ímpar. Minha mãe diz que isso é bom, gastar sorte com porcaria é a pior coisa que tem, e conta o caso do copo quebrado, que acabou virando bom agouro justamente porque é indício de que a pessoa não gastou sua sorte para preservar a integridade de um simples copo. Não duvido. Nesta noite sonhei com um cadeado, quero dizer, um galo. É que meu pai passava um todo enferrujado no galinheiro e, não sei o porquê, quando me lembro do galinheiro, penso mais no cadeado. No sonho era um galo-índio, como o que tínhamos, lindo, imponente, peito estufado, penugem brilhante. Pela manhã fui lá, joguei no galo. Claro que deu outro bicho, nem quis saber qual. O fato é que, a cada dia que passa, vejo-a lá dentro, potencialmente maior, crescendo. Com tamanha sorte assim, encravada, sinto que vou implodir a qualquer momento: sorte das plantas e dos vermes, que nunca engoliram tanto adubo ou cinza estrelada.

 

***

 

Conheça 3 Poemas do livro Sentimento do fim do mundo, de Willian Delarte:

 

Outro Dia


Há dias cinzas que redomam o Sol

e mesmo sem qualquer nuvem morta no céu,
vem a surgir mais nublado que as noites,
calando as brisas,
os pássaros
e os vira-latas de esquina.

Dias em que as flores murcham
e os carrapatos tendem a morrer obesos e entediados.

Quase terça, quase segunda,
um misto de fila de banco
com volta ao trabalho depois das férias.

São dias em que a tevê é uma tortura,
a cama, desconfortável,
as ruas, desertas,
e o rádio insiste em repetir as canções do verão passado.

Você poderia chorar,
mas as vistas estão secas,
a alma, muito magra,
e o coração não pesa mais que um sopro aberto no ar.

Uma certeza existe,
acordar fora um erro,
e uma dúvida morde-lhe o fígado lentamente:

não saber se foi ontem
ou hoje
que você acordou com a impressão de que o dia jamais acabaria...

 


Manhã de Trabalho

Sono,
olho ardendo,
uma bigorna trançada nos cílios -
vontade de fechar e nunca mais abri-los.

A boca seca
ruminando
o jantar de ontem.

Uma sede incômoda,

sensação de que a qualquer momento
as sobrancelhas despencarão.

Em dias assim é que queremos
sempre
um pouco mais:

apagar as luzes,
trancar a porta,
descansar o Mundo -

e você já não sabe bem
o que te mantém de  pé,

talvez a fé,

talvez a preguiça de imaginar algo diferente.

 

 

Redenção

Um corpo celeste
rasga o firmamento,
calmo, violento.

A atmosfera estuprada
observa o mundo
gemendo.

Afrouxa-se o sagrado Buraco-de-ozônio
(relíquia íntima dos homens modernos)
e uma breve sombra sobre o país
revela ao povo
(sempre resignado)
um pouco mais do seu futuro:
o sempre obscuro, o sempre esperado.

Severina (a velha nordestina)
reza o Terço da Redenção...

Tumulto na American Airlines:
ibope e prantos na televisão.

Alucinados,
anões, frades e mendigos
ensaiam discursos para Deus

(ignoram o Deus de Severina,
sem músculos
e cheio de Graça).

Loucos fogem dos hospícios
e se misturam aos blocos na avenida:
Mangueira, MST, Greenpeace e Parada Gay.

O cometa se aproxima...

Batucadas de norte a sul do país
consagram um povo em êxtase!

E Severina continua a passar as pedrinhas do rosário...

Deus sorri,
mais certo de sua decisão -

quer logo ajoelhar-se aos pés de Severina,
olhar em seus olhos,
implorar seu perdão.

 

 


 

Livro: Cravos da noite

Autor: Willian Delarte

Gênero: Contos

Número de Páginas: 140

Formato: 14x21

Preço: R$ 32,00 + Frete 

 

 

 

 

 


 

Livro: Sentimento do Fim do Mundo

Autor: Willian Delarte

Gênero: Poesia

ISBN: 978-85-64308-07-7

Número de Páginas: 124

Formato: 12x18

Preço: R$ 28,00 + Frete