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Vera Helena Rossi

VERA HELENA ROSSI

 

Autora do romance Telefone sem fio (Patuá, 2014) e do livro de contos Mind the gap (Patuá, 2011), Vera Helena Rossi é jornalista, mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC – SP e doutora em Comunicação e Semiótica também pela PUC – SP.  Ministrou no Espaço Revista Cult curso sobre Jornalismo Literário em 2012. Tem participações na Revista Cult, na Revista Língua Portuguesa, na Revista Metáfora, no Portal Cronópios e na Revista Zunái. Vencedora do concurso de contos Sesc On-line 1997, avaliado pelo escritor Ignácio de Loyola Brandão, foi finalista, com o romance Estamos todos bem, do VI Prêmio da Jovem Literatura Latino-Americana.

 

Contato:

Skook de Algarobas Urbanas

 

 

 

Conheça o Prefácio do livro Telefone sem fio, de Vera Helena Rossi:


Que sussurre a primeira palavra
quem nunca mentiu ao brincar de telefone sem fio

por Ana Rüsche

 

Você já soube a tua própria verdade na língua? Até que a saiba tanto e a transforme em mentira? Até que se transmude em sonho, se consuma no cigarro durante o papo com um amor daquela noite, se retorça em uma anotação à toa na folha enquanto participa de uma reunião no trabalho, até que cintile num cisco, num incômodo? Você já soube a tua verdade até não a reconhecer como própria? Quando se apresenta como uma estranha e se senta no sofá da sala com uma familiaridade espantosa?

Telefone sem fio não ajuda a responder nenhuma dessas perguntas. Bem mais atiça quem lê para que outras sejam feitas. Síndrome de sobrevivência para que se lide com aquela porção horrorizada e desconfortável de nós mesmos. Que, ao escutar a canção querida de Joni Mitchell, já não reconhece mais um beijo roubado adolescente e apenas enxerga a dúvida, numa porção inacabada do próprio rosto refletido no retrovisor do carro que não dirige. No quê nos transformamos todos os dias?

É a história de Alma. Alma Pontes. Da tenra infância à idade adulta. Do telefone cinza ao aparelho celular. Inicia-se com a pequena menina estrábica, que aprende a mentir na brincadeira de telefone sem fio e que revida da vida ao cuspir nos sapatos engraxados de um homem estranho que se intitula 'pai'. Desenrola-se com a garota que possui relacionamentos com uma semelhança suspeita, sempre em paralelo, aos relacionamentos de seu irmão Mauro. Até chegarmos à narradora do início com o rosto refletido em um retrovisor, buscando sentidos no oráculo pagão que é a internet.

Uma tentativa de explicação ao que é tão difícil de explicar, tendo como pano de fundo os principais acontecimentos brasileiros dos anos 90 a 2000. Que passa pelo plebiscito sobre a monarquia; pela moda de dançar lambada, enquanto muitos tinham as economias ceifadas pelo Plano Collor; pela morte de PC Farias; pelo pedido de impeachment de Celso Pitta; pelo racionamento de energia durante o governo de FHC; pela eleição do Lula; pelo advento da internet. A narrativa traz muito sobre o modo de viver da classe média na cidade de São Paulo: a formação escolar, os apartamentos, as festinhas, as aulas de inglês, a faculdade, os empregos de vendedora no shopping, de jornalista, de professora de história, os freelas, as incertezas do quê pensar, com quem dormir, onde morar.

Em uma prosa ligeira e deliciosa de ler, cheia de sutilezas e graças, Vera Saad Rossi coloca-nos no beco em que sempre estamos: como narrar nossas próprias verdades? As mais difíceis de serem assumidas? Em meio a dificuldades familiares, dissabores amorosos, perrengues financeiros diários?

Enfim, o que nos resta, diante de Telefone sem Fio, é somente uma única prerrogativa: o direito da dúvida. Aproveita.

 

 


 

Conheça 3 trechos dos contos do livro Mind the gap, de Vera Helena Saad Rossi

 

AS CAIXAS DE PAPELÃO DA FAMÍLIA A. ALMEIDA

Nossa casa, como se espera de uma casa, abriga um lugar por vezes sombrio, onde é guardado nosso passado, talhado em papéis, quinquilharias, objetos inúteis e mais um sem número de peças inutilizadas do cotidiano. Mantemos o local [que se resume a várias caixas de papelão desequilibradas no quarto dos fundos] intocável, atordoados com a sua existência, que, ainda assim, se exibe diariamente contra nossa vontade. Bem verdade, evitamos olhares diretos às caixas de papelão, empacotadoras do nosso pedaço inutilizado. Por vezes, entretanto, largamo-nos em espiadas rápidas e oblíquas sobre aquelas caixas: pequenas, grandes, inteiras, rasgadas, a quase rebentarem de passado.


[...]

LOUCA

Vai e vem. Sua cabeça vai e vem. Seu corpo vai e vem. Em zigue-zague. Já chamaram-na louca: mas, pouco se importava, o pouco de sanidade a impedira de prestar atenção nos outros.
Lá estava ela, no metrô, cantando e dançando alto. As pessoas a olhavam de viés, riam disfarçado e continuavam a se entreter com o próprio umbigo. Uma delas, porém, se preocupou de fato com os delírios matinais da “louca”.

“Ela vai pular. Quando o trem chegar. Ela vai tentar se matar. Ninguém faz nada. Meu Deus!” Algo em seus olhos denunciava uma vontade suicida. “Ninguém vai fazer nada?” Quis avisar o senhor quase careca ao lado. Arrependeu-se de pronto. Afinal, também seria “louca” se desabafasse seus medos a um estranho, quase careca.


[...]

 

OCASO

Como não entrar por aquela porta? Ela já estava escancarada antes de me conheceres, meu amor. Sim. É o que quero. Entrar por aquela porta escancarada e esquecer-te.
Pelo postigo, mostro-me pela metade. Diante das malas e dos livros, lá estou eu, pela metade, com o que sobrou de nós, um pequeno quarto de um hotel sem estrelas.

Melhor assim, as estrelas só me serviriam para iluminar o que, dadas as atuais circunstâncias, não quero ver.

No entanto, teu rosto me vem à mente, assim, como que sem querer, igual à última vez em que o vi.

Teu corpo sem sangue arrancava-me, naquele dia, aquelas fúnebres lágrimas, denunciadoras de meu lado patético. Enquanto olhava para ti, estática e pálida, elas escorriam até minha boca e acordavam pedaços de ti. Luana mãe, maternalmente sol. Luana amante, apaixonadamente lua. Luana esposa, silenciosamente chuva. Luana adúltera, fatalmente noite. Morreste pela segunda vez, meu amor, naquele velório.


[....]

 

 


 

 

Livro: Telefone sem fio

Autor: Vera Helena Rossi

Gênero: Romance

Número de páginas: 200

Formato: 16x23

Preço: R$ 35,00 + frete

 

 

 

 


 

Livro: Mind the gap

Autor: Vera Helena Rossi

Gênero: Contos

ISBN: 978-85-64308-14-5

Número de páginas: 100

Formato: 12x18

Preço: R$ 28,00 + frete