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Flávio Aquistapace

 

Foto: Renato Suzuki

FLÁVIO AQUISTAPACE

 

DIGERINDO PENAS é o primeiro livro de Flávio Aquistapace. Publicado em 2012, foi escrito a partir de 2006. O autor gosta de ler Hilda Hilst e Thomas Bernhard. Kafka, Beckett, Camus, Machado, Guimarães Rosa, Carlos Drummond e Clarice Lispector estão igualmente presentes neste panteão particular. Também gosta de estudar literatura, rir e jogar conversa fora entre amigos, conhecer como as pessoas pensam e andar pelas ruas da cidade em que nasceu, São Paulo.Todo dia precisa de ar, dos pés no chão, de muito café e, para as noites especiais, vai bem alguma bebida forte: é quando ouve ou Coltrane ou Billie ou pós-punk mesmo sem estar ouvindo, ou então não faz parte de um filme do Wong Kar-wai, mesmo fazendo, em meio aqueles contrastes, as lágrimas e o frio. Adora ao frio quase mais que tudo – porque sabe que nele o calor é mais necessário. O entusiasmo cultiva sobretudo na convivência com o pai, no ardor encontrado na atenção que recebe dos rapazes eleitos – muito embora não passe de todo imune ao feitiço feminino –, e no renovado embate com a escrita. Para além disso, o autor bem sabe que são contingências que, ora distraem, ora despistam o tédio e, com alguma sorte, concorrem para o tempo passar mais rápido, e até divertem...


(Bio by Bruno Mantegão)

Contato:

Skook do livro Incensário

 

Foto: Renato Suzuki

 

Conheça a orelha do livro:

 

A literatura que importa começa sempre por uma desestabilização das formas instituídas. Diante de um texto desta linhagem, inevitavelmente nos perguntamos: é isto um romance? um conto? um poema? Digerindo Penas, livro de estreia de Flávio Aquistapace, é um desses textos indefiníveis. Ele se furta às classificações. Encontramos aqui nove narrativas que assumem as mais variadas formas: conto, carta, poema, peça teatral. Cada uma dessas narrativas goza de uma existência autônoma – o que pode nos fazer pensar que seria este um livro de contos. Contudo, conforme avançamos na leitura, percebemos que as narrativas vão delineando, aos poucos, uma história mais ampla, para além daquela que cada uma delas contém – o que nos leva a supor que se trata, então, de um romance.

Porém, se romance, um romance em ruína, construído a partir de fragmentos de fala em primeira pessoa. A principal voz é a de Bruno Mantegão, rapaz que, aos 33 anos, se vê frente a uma doença grave e, em função disso, imagina um reencontro com a mãe, de quem se afastou há tempos. A estrutura ruinosa do livro replica a sensação de estar aos pedaços, que domina o protagonista. “Nunca imaginei encontrar depois de Santa Fé/Porto Alegre uma palavra que fosse minha”, diz Bruno. “Mas achei e ela é esboroada.” O que ele mais anseia é recuperar o que chama de “corpo íntegro”, cuja integridade será para sempre instável − como a da narrativa − porque sua unidade não está apenas dentro de si, mas implica a recomposição, ainda que imaginária, de uma história, de um passado, de uma origem. Nem que seja para enfim se libertar dessa origem − o que não deixa de ser uma definição do trabalho de toda a literatura, e especialmente daquela mais radical. Como escreve Bruno, ou Flávio, numa carta: “A escrita, sabemos, de um jeito ou outro, serve para desabrigar o autor”.

por Verônica Stigger

 

Leia abaixo trechos selecionados do livro Digerindo Penas:

 

"No tempo que lhe resta, sonha com o dia em que finalmente reencontrará sua mãe, após anos afastados, para de novo olhar em seus olhos, agora os dois pares, os seus e os dela, ambos envoltos em suas fadigas nominais, só para poder sorrir-lhe novamente, tornar menor todo o tempo das desavenças e dizer: mamãe, este corpo amassado é o que eu fui aos 33 anos de idade; você o meu câncer e eu, o seu."

 

***

“Quando suspedi o seu corpo, eu ainda clamava por alguma reação dele, eu realmente ainda tinha esperanças, eu não conseguia me dar conta do sufoco da dor, do pesadelo todo, em suas dimensões reais, em tudo o que era possível perder numa vida, de uma só vez, então eu ergui o corpo inerte do meu filho, e eu lembro até hoje do som da minha voz chorando, e do quanto eu queria que ela saísse mais, mas ela não saía, e eu não conseguia ouvir sequer o meu próprio choro, embora eu berrasse, eu sei que eu berrava naquele instante, mas não saía. Eu berrava com toda a minha força. Eu berrava como um neném enche os pulmões de ar para dar o seu primeiro grito de vida. Aos 49 anos de idade, eu fui um bebê outra vez, com a minha cabeça largada no colo do meu filho morto.”

 

***

“Do avesso. Uma carta.
São Paulo, 28 de junho, 2010
Caro Gustavo,


A tentativa é de enredar, mergulhar fundo e sair do outro lado. Até os 20, torci para dar certo. Depois dos 30, minha expectativa é de que não seja tudo igual daqui até o fim. Escrever, no entanto, não vai resolver coisa alguma. A escrita, sabemos, de um jeito ou outro, serve para desabrigar o autor. No caso, eu, aqui, diante de você.      
Diante de você, neste vento enregelado, inevitavelmente rememoro como começamos. É regressivo o húmus da saudade. Quando você morreu, eu quis ser enterrado junto, nem que fosse vivo, tamanha a minha infelicidade perante a dor. Hoje percebo que ser acolhido pelo canto duro da terra certamente não dissuadiria a repercussão da perda. Nada dissolve uma perda. Não há pedra dura que tampe a falta do amor. Constatei o que te conto ao topar com Gustaf, o michê de nome parecido com o seu.”

 

***

"[...]


O menino sonda, tateia, até que por fim encontra a pequena colher para comer o doce que trouxe consigo ao voltar para a mesa. Deve ser a segunda porção que saboreia hoje. Alguma coisa ele enxerga, porque aproveita e me pergunta o que é isso que tenho comigo. Respondo que é um livro, que eu escrevi. “Um liiiivro!?”, ele diz. “O moço é escritor?”, pergunta o tio. É uma tentativa. É o meu primeiro. Ainda não foi sequer publicado. É um começo. Vamos ver. O que trago aqui são os manuscritos. Ele abre um sorriso: “Ah, muito bem! E já tem título?” DIGERINDO PENAS, respondo entre garfadas. Muito esperta, ela aproveita a conversa e tenta pegar o pacote de mim, o velho a interrompe imediatamente: “Arre! O que a mocinha vai fazer com isto?” Ela solta um muxoxo e me devolve o envelope com os originais dentro.Tanto melhor. Antes de se levantar, o tio deixa um cartão comigo, da instituição para cegos em que trabalha como bibliotecário: “Tem uma audioteca, livros em braile, e ledores também, você está convidado a nos conhecer”. Guardo o cartão, prometo dar um pulo lá, e ele se preprara para sair, “Vocês me ajudem aqui, que agora nós vamos embora”, ele diz para as crianças. Cassandra salta da cadeira, Heleno, ou Black, já está de pé, de braço com ele; ela sai serelepe na frente, gentilmente nos despedimos, o tio já meio atrapalhado para ir logo embora sem a perder de si, “Tenha boa sorte aí com o seu livro, tudo de bom”.

 

 


 

Livro: Digerindo Penas

Autor: Flávio Aquistapace

Gênero: Romance

ISBN: 978-85-64308-26-8

Número de Páginas: 134

Formato: 15x20

Preço: R$ 29,00 + Frete