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Polyana de Almeida Ramos

POLYANA DE ALMEIDA RAMOS

 

A autora do romance Sangue de Mim é publicitária, bacharel em Letras e mestre em Literatura e Cultura Russa pela USP. Polyana de Almeida nasceu em 15 de maio de 1981, em São Paulo, sob o signo inelutável da lua. Filha enfermiça da vida, encontrou vazão para sua constante inconstância na violação das palavras, experimentando textos e sabores em busca do gosto de toda a gente. Nos últimos três anos, foi selecionada em alguns concursos literários, tais como Prêmio EDUFF e FEMUP. É uma das vencedoras do Programa Rumos Itaú Cultural Literatura 2010-11, com ensaio em lançamento em Dezembro de 2011. Sangue de mim, fragmentação do desencontro que a rodeia, é seu primeiro romance.

 

 

Contato:

Skook do livro Incensário

 

 

3 trechos do romance Sangue de mim, de Polyana de Almeida Ramos

[...]

a imagem: na mão, uma foto, uma carta com ela. palavras jogadas, dispersas. perdidas como a foto. reversos. no sépia envelhecido: uma sentada, as outras de pé. ranhuras nas cores, uma imagem velha e nada mais. mortos. passado morto. mulheres presas no papel. quem são essas mulheres, meu deus? quem são? tudo vai bem. vai bem. é possível prender o passado no rosto, ferros na cara, é possível prender com ferros o passado, branca, brancos, sentada; pretas, preto, em pé. quem... são? eram. vestidos. vestidas de branco, as três. uma velha: sentada. a mãe e a filha: de pé. o fundo, madeira caiada de branco, contraste de cores. a pele branca esparramando-se pela parede, extensão do mundo. no chão, escuro do fundo, terra preta devastando o mundo, a pele preta lustrando, polindo o tudo. era uma vez uma foto. era uma vez a história da foto. era uma vez a foto, na história das pessoas presas pela foto. era uma vez a história de três mulheres, unidas por um único e inextrincável elo: o sangue. era uma vez o sangue na
foto
três
mulheres
num elo e a
história.


***

[...]

Vem.
E nós vamos, num piscar.
Dia e noite, noite-dia. Leva e traz. Dos dois lados. Um, outro. Sem parar. Disfarça um pouco, depois abre bem. Abre. E não fecha (não pode fechar). Amanhã tem mais. Primeiro a lida: no escuro o repique e as pernas, num vem-vem de se acabar, dali um pouco vão servir pra catar, vão catando, sumindo, nós vamos sumindo com tudo, trocando a desordem pelo que vale, nós sabemos como é que se faz. Levanta do chão, abre as janelas, joga longe o tropel de cortinas e coloca elas lá em cima, tira os tapetes, as madeiras estalando, movimento, descalças, pé grosso de pisar, nós vamos saracoteando em vassoura, de lá para lá, as ancas se lembrando do balançar de antes, vamos dançando ao som do que é bom, batuque da umbigada em roda, ressoando na alma, nossa roda de tambor, canto que toca brasa na pele, bota em pele um furor, não se esquece de nada, varremos, sacudimos, torcemos, água espalhada em todo canto, sabão de pedra, nós agachamos, rã a vasculhar poeira, espumando os vincos, batente, embaixo disso e daquilo, não olhamos pra cima, lá em cima corre o mundo de cima e não se pode olhar. Do nosso peito se esvazia leite pros pequenos da siá, vai escorrendo grande, eles mamando no fundo, chupando as nossas partes desde miúdo até a face enrugar. Vira. Põe comida na panela. Nossos tachos. Nós e toda a comida de tacho pra servir bem, e a toda hora. Joga o arroz, escolhe o feijão, lava a cenoura, o aipim, tudo quanto é verde, atira o pimentão, cebola, farinha, sustança de boi prepara os homens pra vida e nós vamos juntando a comida, nós, pra não faltar nem sobrar, satisfação. Corpo aberto. Da carne, nós tiramos sebo. E vamos cortando, rasgando, o cheiro do sangue, cortando, matando o morto, desfiando, nós enfiamos na lenha quente, pra satisfazer
.

[...]

***

[...]

O espelho.  A mãe disse olha lá no espelho do banheiro, a menina correu da sala como se pudesse transformar as pernas em asas: a ânsia de quem aguarda em uma porta eternamente trancada e, finalmente, recebe uma chave, como faca. Corta, corta, corta. Artéria principal. Vermelho. Veja só como você tá linda, a mãe colou-se no passo da filha, não queria perder um único instante daquela revelação, sorrisos, sorrisos, sorrisos de dentes-de-leite, boca grande de branco contrastante com a pele bege, um bege desbotado, desgastado, pele desarmada nela tão jovem, a menina engrandeceu e a mãe lhe deu um abraço por trás, um abraço que definia o mundo, lindeza em flor, uma flor nascida no outono, a única, separou uma mecha dos cabelos no lado direito e colocou a fivela vermelha, a única, o vermelho vivo despontou, jogou uma luz naquele rosto, nos cabelos feitos escorridos, nunca vi meu cabelo tão comprido assim, mãe, e deu uma volta, uma volta que não cabia, não sabia sustentar tamanha felicidade. Agora você tá igualzinha à mamãe, apertava a menina nos braços, por trás, viam os seus reflexos no espelho, unidas, duas versões de uma mesma música, igualzinha à mamãe, sentia o corpo quente da mãe a ponto de sufocá-la, um misto de extremo êxtase e incômodo.

[...]


 

Livro: Sangue de Mim

Autor: Polyana de Almeida Ramos

Gênero: Romance

ISBN: 978-85-64308-27-5

Número de Páginas: 180

Formato: 16x23

Preço: R$30,00 + Frete