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Ramon Ramos

RAMON RAMOS


Ramon Ramos, autor dos livros Caroço (Patuá, 2013) e Tinta (Patuá, 2012) é um cara normal. Nasceu no Rio de Janeiro em 86, mas detesta praia, calor, samba, blocos e outras coisas que definem cariocas. Não usa óculos, clichê ou imagem de intelectual. Não, ele não tem cara de escritor. De poeta, só o moleskine preto e a úlcera. Dentre os estereótipos, é meio estranho. Até na camisa laranja e mal passada. Formou-se em Letras pela UFRJ em 2009, é professor, também dá aula de graça e acredita que este mundo ainda tem salvação. Ex-mestrando e ex-vegetariano, é mais radical do que gosta de admitir. Vai ao cinema sozinho, guarda a África no pulso e vê prazer no que é de não. Tampouco tem dúvidas de que o poeta é um ser estragado, doente, desses que tem certidão no torto.

Ramon nunca publicou seus poemas em revistas ou jornais literários, tampouco venceu concursos ou consta em antologias. Não acredita em currículos, só na forma. Não vê, em nosso tempo, espaço para vanguarda ou linguagem mofada. Acha o braço um ótimo lugar para versos.

 

Contato:

Skook do livro Incensário


Conheça 02 trechos de contos do livro Caroço, de Ramon Ramos:

 

Trecho do conto Um peixe para Alda:


não confies em homem que não sabe mentir
(Mia Couto)



"Numa quinta, Alda me trouxe um peixe. Já tinha, em outras oportunidades, me trazido pedaços de bolo e certos docinhos. Ela era boa de cozinha. Na entrevista, em janeiro, lembro alguém comentando: vamos ter uma boleira este ano! Meio que fazendo piada daquela com cara de senhora, mais pelo cansaço da vida que pelo tempo nela.

Essa coisa dentro de todos nós: a vontade de degustar o melhor dos outros.  O coordenador da época tinha feito a brincadeira. De boa, sem maldade. O trouxa não sabia que o bolo viria para mim. De vez em quando, sem alarde ou espera, mas sempre, sempre em tom subversivo.

Subversivo porque Alda sabia que, na volta das aulas pelo caminho de casa, eu comia um churrasquinho daqueles de esquina. Bem estilo pé-sujo, vendo o churrasqueiro magrelo pegando no dinheiro, dando troco e ao mesmo tempo empilhando nacos de franco no palito. Com molho e farofa.

Alda me levava bolos. Num recipiente descartável de plástico, que eu me esquecia de devolver. Sim, para ela o valor daquilo fazia diferença. No orçamento apertado de quem trabalha fazendo não sei o quê, mas ainda assim arruma tempo e vontade de me levar bolo."

***

 

Bonequinha de vodu


distinguir a dor
de tudo o que a não é

(Wisława Szymborska)



"Era linda. Sempre foi, para falar a verdade. Desde pequena, mastigava as atenções em todas as festas de família. Tipo bonequinha, os pais mimavam e se mantinham empregadores das suas vontades. Mas nunca deixou o poder de mandar nos pais subir à cabeça, mesmo ela sendo dessas que vestem rosa.

Sofia Pétala, o nome. Não entendia essa lindeza que as pessoas diziam. A menina sempre foi para menos. Tanto que deixava seu metro e meio (ou quase isso) abrigar o eu. Não gostava de gritos, ainda que os pais vivessem nisso. Ritual de brigas ou indiferença traçava a rotina da casa. Onde o silêncio põe a mesa.

Então, a garota ficou podre. Estragada.

Quando viram, já de quinze anos. Mas olhavam como se fosse dez para as três. Levaram ao analista em busca de uma dieta para felicidade. Eles sabiam que ser feliz é uma espécie de fome. Só que a garota sentia um certo prazer na tristeza. Abraçava-a como se abraça um sorriso cheio de dentes."

 


 

Conheça 4 poemas do livro Tinta, de Ramon Ramos:


Suores da tinta

Ante o banho de sol
a tinta no corpo da lata
exala seus calores
sonhando o dorso do muro

enquanto outro tom de amarelo
observa pela transparência do plástico
o cabelo cacheado onde vai se agarrar

são esses os suores da tinta
a ser cravada na pele
à prévia do beijo da agulha
ainda em posse do tatuador.

Pela lâmina da língua afiada
a tinta escorre maliciosa
até o lume do seu corte.


***

 

Tira de humor

QUADRO 1
Com tua luz faço fotossíntese.

QUADRO 2
Placebo: nunca foi amor.

QUADRO 3
Quem cata os cacos?
Não me varre pra debaixo do tapete.

***

 

Menino urbano

de bermuda e barba por fazer
pega a Bic e picha a noite
com versos no ônibus
que não levam a lugar algum

exceto à sua condição insular
ao pé do apartamento onde
a solidão se exila na sintaxe

é, ele tem um jeito estranho de gostar

e o lagarto tatuado no braço
sorri enquanto Something
se despe no Ipod e poderia ele
pisar como quem tinge
à luz do asfalto
tudo o que fica para trás?

I don’t know, I don’t know
se esses versos dão zoom na saudade

talvez por isso não sustente mais
sombras e preencha com palavras
as ruas do seu abandono.

***

 

Coração de Lata
a Manoel de Barros, bocó

O menino de lata
engaiolou no dicionário.
Seu cacoete para ecos
cria ninho no teto dos carecas.

O menino de lata alonga cartilagens
com pilates de caramujo quando
inicia ervilhas na vida enlatada.

É visto por cinza
tem no torto certidão
a solenidade do desvio é seu recanto.

O menino de lata não tem saúde de plástico
e pinça na solda a própria comunhão


 


 

Livro: Caroço

Autor: Ramon Ramos

Gênero: Conto

Formato: 14x21

Preço: R$ 35,00 + Frete

 

 

 

 


 

Livro: Tinta

Autor: Ramon Ramos

Gênero: Poesia

Formato: 14x21

Preço: R$ 27,00 + Frete